NÃO É SÓ FUTEBOL

Final da Copa de 1962. Família reunida em torno do rádio de válvula torcendo pelo Brasil. Que era favorito. Tinha Garrincha, Didi, Nilton Santos, Vavá, Amarildo, Zagallo, entre outros que se eternizavam no meu álbum de figurinhas.
Logo aos primeiros minutos de jogo, entre chiados e ruídos, ouve-se a voz desolada do locutor. “Gol da Tchecoslováquia, meus amigos.” Desânimo geral.
Quase geral, não fosse uma providência tática de quem menos conhecia futebol, mas de quem mais tinha fé na vida.
O goleiro tcheco chamava-se Schrojf, usava um chapeuzinho estiloso, tinha lá sua marra, apesar de baixinho para posição. Pois. Minha avó escreveu o nome dele num papelzinho, dobrou o mais que pode, colocou entre a meia de lã e a pantufa – sim, carioca morre de frio no tenebroso inverno de junho no Rio de Janeiro.
E o Brasil virou o jogo. Um gol de Amarildo e outro do Zito. A cada comemoração minha avó pisava forte a pantufa, amassando ainda mais o nome do goleiro escrito no papelzinho. Quase no final do segundo tempo, nosso lateral direito Djalma Santos lança uma bola alta despretensiosa para área adversária, Schrojf se prepara para uma defesa boba, mas a bola escapole ridícula de seus braços e cai lentamente nos pés de Vavá. E o goleirinho foi buscar bola e bonezinho no fundo das redes. Pronto. Brasil 3 a 1, bicampeão do mundo. Vocês pensam que o gol foi do Vavá? Nada. Foi da minha Vozinha.
Ontem a final de 62 ressurgiu do fundo da minha memória. Vozinha, um eletricista de Cabo Verde, que trabalha de dia e treina de noite, apareceu fazendo milagres contra a Espanha e tal como minha avó, entrou para minha História.
Ah, o futebol e seus encantos.

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