Um outro futebol possível

Quem me conhece sabe: sou são-paulino, sem nenhuma amarra de revelar, mesmo aguentando muitas piadas pela fase atual do tricolor e principalmente porque algumas pessoas insistem em dizer que tenho jeito de corintiano. Sempre explico que a torcida do São Paulo não é só composta por tipos como Kaká e Caio Ribeiro, também temos nossos Chulapas pra equilibrar.
Não sei se é incoerente ou se vai pegar mal com os sectários, mas mesmo sendo são-paulino, no futebol feminino meu time é a Sereias da Vila, e explico o porquê:
Definitivamente: o jogo, o clima e a torcida do futebol feminino fazem a diferença. É simplesmente outro futebol, do tipo que me encanta. Então, em respeito a equipe que me fez retomar o gosto em assistir jogos no estádio, assumi a torcida pra Sereias.
Tudo começou no início do Campeonato Brasileiro Feminino, neste ano, quando soube da estreia das Sereias contra o Flamengo na Vila Belmiro e o melhor: jogo na faixa.
Como moro no litoral, me animei em agitar uma ida em família e assim fomos: Amanda, eu e a pequena Inaiê, em sua estreia no estádio. Algo impensável em meios aos ingressos caros e que, mesmo quando estão em promoção, acabam em poucas horas na internet, sem contar o clima tenso que faz a gente pensar duas vezes em ir aos jogos.
Chegamos na Vila, vimos muitas crianças e jovens prestigiando as Sereias e isso conquistou meu coração. Poxa! Um lugar em paz pra assistir futebol com a família, inclusive com a criança pequena que não para de correr. Sem aquelas tretinhas de torcida única, procurando encrenca com quem não tem camisa, com quem critica o jogador queridinho ou com o vendedor de amendoim.
Na arquibancada, as mulheres eram a maioria, inclusive muitas de mãos dadas, curtindo um chamego, vendo o time de coração, sem precisar ficar no armário ou lidar com a violência e a intolerância, tão hostil e comum em muitas partidas.
A prova que as partidas das Sereias é um ambiente seguro foi o fato de uma pessoa, com camisa da torcida organizada do Santos, ter me reconhecido. O cara era de Pirituba, meu bairro de origem, e conhecia meus livros. Pensei: Caramba! Se ele leu meu livro sabe que sou são-paulino. Na hora gelei, quem é de arquibancada sabe: ser torcedor infiltrado é um perigo! Mas no fim tiramos até uma foto juntos.
As Sereias venceram por 3 x 0, com gols de Fabi Simões, Thaisinha e da grandiosa Cristiane, que marcou um golaço de cabeça, deslocando a goleira do Flamengo, a selecionável Bárbara, no contrapé. Além disso, gostei muito da elegância do meio-campo, embalado pelas meias Yayá e a capitã Brena.
Depois, fiquei ensaiando pra ir em outros jogos, mas sempre casava com algum compromisso, por isso assistia pela internet ou acompanhava os resultados.
Nesse meio tempo, com tantas falcatruas divulgadas no ramo de apostas, o futebol feminino passou ileso, sem nenhuma denúncia, mesmo em um contexto em que os salários das jogadoras é bem mais baixo, se comparado aos jogadores da Series A e B do masculino.
Quando finalmente estava tudo pronto pra gente voltar e torcer nas arquibancadas da Vila, pela semifinal do Brasileirão feminino, uma confusão da torcida provocada no jogo masculino interditou o estádio, prejudicando as Sereias e a nossa torcida.
Achei injusto, porque o futebol feminino é sempre tratado com diferença, mas isso não valeu no caso dessa punição.
Mesmo assim, continuo na torcida e quando essa pena passar vou torcer pelos gols de Cristiane, Ketlen e Thaisinha, pras Sereias seguirem firme até a final do campeonato. E o melhor: em um jogo futebol acessível, anti-homofóbico, não-violento e sem a sensação de falcatruas. Dá-lhe Sereias!
Enquanto isso, o futebol por aqui está em pausa, pois é hora de torcer pra nossa goleira Camila, arqueira da Sereias, que está com a seleção na Copa do Mundo. A estreia contra Panamá foi empolgante e as manhãs da seleção feminina prometem. Que venha a França!

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