MEU PAI VEIO.

Há exatamente 8 anos, num 22 de junho, meu pai se despedia da vida, em plena Copa do Mundo.
Seus últimos dias foram estranhos. Já não reconhecia as pessoas, não falava coisa com coisa, repetia histórias da sua vida remota a cada cinco minutos, como se estivesse vivendo a infância, ali, naqueles agoras.
Mas a tristeza de percebê-lo numa despedida inconsciente era superada pela magia da Copa do Mundo que acontecia na África do Sul. Eis o surpreendente: nos primeiros jogos que conseguiu ver,
a cada apito inicial, ele comentava, falava dos jogadores, criticava o técnico, sugeria substituições, palpitava táticas, xingava o juiz como o menino que sempre fora. Com comovente lucidez.
Meu pai não chegou ao fim da Copa de 2010, nem passou pelo dissabor de ver o Brasil eliminado,
depois da patacoada desclassificante de um volante brasileiro estúpido, um sujeito de maus bofes, segundo meu próprio pai.
Não há Copa do Mundo em que eu não me lembre dele. Porque quem é vivo no coração da gente sempre aparece.
Hoje ele apareceu. Chegou cedinho, com saco de pão francês fresquinho debaixo do braço. Estava bonito,
com a camisa azul de 58, nervoso e ao mesmo tempo confiante, como convém aos amantes da arte do futebol.
Aceitou café com leite, esqueceu do risco do diabetes e pediu para caprichar no açúcar. E com a bandeja
de média com pão exagerado na manteiga no colo, sentou-se do meu lado no sofá, minha Verezov Arena de uso pessoal.
De mãos dadas, assistimos ao jogo juntos. Revivemos as tardes no Maracanã, quando víamos Pelé jogar – sim,
o Maracanã foi um dos maiores e preferidos palcos do Pelé – e celebrávamos a vida com toda sua beleza e emoção.
Chutamos o ar, levantamos do sofá, xingamos mais uma vez o árbitro de vídeo, roemos as unhas das mãos que
não estavam entrelaçadas, comentamos que Neymar não estava bem, um tanto chiliquento, teatral, talvez sob efeito das dores da recente contusão.
Rogamos aos deuses do futebol que fossem um tantinho mais justos, já que a bola teimava em não entrar,
ora batendo na trave, ora fazendo a glória do goleiro e das canelas da defesa da Costa Rica.
Na sua sabedoria, meu pai evocou Brasil e País de Gales de 58, quando um suado gol de placa de Pelé no finalzinho foi a volta da respiração de um quase afogado. Ele me disse “calma”. E foi ouvido pelos seus cupinchas lá do Céu: Coutinho, 1 a zero nos acréscimos. E para coroar o calor da sua presença ao meu lado, Neymar, enfim,
desencantou nos acréscimos dos acréscimos.
Assim como chegou como por encanto, como por encanto meu pai desapareceu. Deixou a certeza de que no próximo jogo estaria ao meu lado, alguns farelinhos de pão francês no prato e uma imensa saudade.
A televisão parece mostrar Neymar chorando o choro dos justos.
Não. Não é o Neymar: sou eu.

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