Depois que o jogo terminou saí da caverna. Aurora estava pousada num mourão. Ela me viu e me fez um sinal. Encostei-me na cerca e ficamos olhando o pôr-do-sol, que nessa época do ano é lindo. Fazia frio.
– Viu o jogo? – perguntei.
– Vi.
– Gostou?
– Claro que não. E quem gostaria?
Ficamos falando do Brasil e Suíça. Perguntei-lhe se ela não tinha sintonizado o Canal Z33 de sua TV, aquele que só mostra o que a gente quer ver, mas a coruja disse que não, que não valia a pena. Para ela, nenhuma surpresa no empate e na chatice do jogo. E ela não quis mudar o resultado na Z33. Aurora nunca gostou do jeito do Tite, nem do time do Tite. Ela gostaria de um técnico mais nervoso, mais sanguíneo, mais brasileiro. E jogadores menos comportadinhos.
– E como foi lá na caverna? – Aurora perguntou.
– Nada demais – respondi. – Muitos morceguinhos caíram do teto. Eles ficam roendo as unhas durante o jogo e aí não conseguem se agarrar bem nas pedras. Mas, entre os que caíram, a maioria já estava dormindo.
Os morceguinhos, animados por Oto, meu morcego mensageiro e confidente, até que estavam animados no início do jogo. Mas no segundo tempo foram desanimando, calando, relaxando… e dormiram. Arnaldo, o bagre cego que mora no lago da caverna, disse que no tempo do Ricardo Teixeira isso jamais aconteceria. Falta comando, disse ele, uma mão forte que dirija os destinos do nosso futebol. Arnaldo acha que o país está perdido, e que as pessoas não respeitam mais as instituições e nossas autoridades.
– E você Bernardo, o que achou do jogo?
Eu não estava muito afim de falar de futebol. A noite chegava e as primeiras estrelas já apareciam.
– Gostei muito do México – respondi.
– Mas estou falando do jogo do Brasil – a coruja insistiu.
– A Suíça é um time fraco, não ganha de nenhuma equipe forte, não tem repertório, faz tudo igual. Mas… cada jogo é um jogo.
Não falei do time brasileiro, mas Aurora não insistiu. Ela sempre entendia o que eu dizia. No céu meteoritos viravam estrelas e riscavam o céu. Alguns morceguinhos que haviam exagerado nas frutas fermentadas voavam como loucos atrás das estrelas cadentes julgando que fossem mariposas iluminadas. Mau presságio: um deles usava um sombrero.
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João Batista Freire
Nascido às 13 horas, dia de São João, em Santos. Escola primária no Morro do São Bento, jogador de bola em campinho de terra e pedras, torcedor sofredor do São Paulo. De tanto minha mãe insistir fiz faculdade de Ed. Física, Mestrado e até Doutorado. Gosto mesmo é de escrever, mas como é preciso assunto para escrever enfiei de tudo, de futebol a motricidade humana, de pular corda a pedagogia do movimento. E assim, tenteando e enganando a dita cuja, vou vivendo e já cheguei nos 70.
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