CANARINHA

O amigo Antonino Brandão, que mora em Portugal me fez uma observação pertinente. E como tal, passei a reparar o carinho que os portugueses têm com a seleção brasileira. Chega a ser comovente. Eles chamam o nosso time de Canarinha. Do mesmo jeito que o Brasil inteiro chamava orgulhosamente os representantes da pátria de chuteiras, com mínima flexão de gênero. Inho no ligar de Inha.
Claro que as coisas mudaram. Perdemos Copas, perdemos de 7 a 1, perdemos o carinho pelos craques, que também perdemos. Perdemos o encanto. Até a camisa amarela nos foi usurpada pelos golpistas trapalhões e patriotas de araque, por tempo infeliz da nossa história, como símbolo de um país de gente feliz.
Mas penso que o carinhoso Canarinho foi entrando em desuso bem antes, talvez com música “Voa, Canarinho voa” da Copa de 82, quando nossa seleção espetacular caiu pelos caprichos e trapaças do futebol. A decepção foi tanta que o Canarinho voou de tristeza e nem apareceu na memória da torcida quando ganhamos o tetra e o penta.
Hoje o Canarinho é o nosso mascote, mas me cheira à forçação de um marketing contaminado, tanto que o bicho tem uma cara emburrada, poucos amigo e zero malemolência brasileira, reparem só.
Ainda bem que cá na terrinha prezam-se memória, tradições e afetos. Reencontrei o Canarinho – adaptado Canarinha -, simpático nas prosas das ruas, dos cafés, das tascas e nas transmissões de TV. Gostei do gesto carinhoso.
O que também não garante que o serelepe Canarinho – ou Canarinha, tanto faz – vá voar longe. Pode topar com Cristiano Ronaldo na final e duvido que com tal possibilidade os tugas terão o mesmo carinho conosco.
E tem mais: no meio do caminho há os poderosos remadores, chamados também aqui pela alcunha de Vikings. Não sei se com o mesmo afeto da Canarinha.
Mas isso é outra história.

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