O jogador já se retirou dos gramados, mas, se não fosse o caso, teríamos um problema. Estou falando do Deley, defensor principalmente do Fluminense, mas com passagens pelo Palmeiras, Botafogo, Volta Redonda e até mesmo pela seleção. Em tempos de diferentes tecnologias utilizadas na transmissão dos jogos, o que ocasiona o tal delay, o nome do jogador e essa praga responsável pela chegada da informação na casa do vizinho antes da nossa geraria um ruído nas conversas sobre o campeonato. Você está falando do jogador? Não, desde quando o jogador ocasiona um atraso? Ora, desde que surgiu o futebol. Já basta o escrete canarinho nos dar motivos para tantas discussões. Deley, fora dos campos e mesmo fora da política — já que chegou a ser deputado federal —, é uma gasolina a menos na fogueira de nossas diferenças.
Uma de minhas irmãs, durante a Copa de 1974 ou 1978, sei lá se não era a de 1982, assistia às transmissões com certa passividade. O futebol não lhe interessava, mas sendo o grande campeonato mundial, lá estava ela batalhando um lugar no sofá ou no tapete. No campo, a disputa avançava, o Brasil se arrastava, fossem as duas copas citadas da década de 1970, ou brilhava, se o que vou contar aconteceu em 1982, quando minha irmã se vira para nós e pergunta: “Afinal, quem é esse Longa que joga para todos os times?” Ela não compreendia que longa era a palavra escolhida pelo narrador para descrever uma bola lançada à distância. Não riam dela, por favor, todos nós temos nossas ignorâncias e somos vítimas das palavras, sempre somos.
Por falar em palavra, reflito sobre o narrador. Embora fale aquilo que vemos, acho bom ouvir o que parece até uma cançãozinha. Alguns são criativos e inventam expressões engraçadas: pimba na gorduchinha (parece ter caído na malha fina do politicamente correto); agora eu se consagro; você é ridículo; indivíduo competente; banheira; vamos juntos com a emoção. O jogo precisa dessa voz para torná-lo mais atraente do que é. Mas…
… Os comentaristas, meu povo, o que são os comentaristas? Eles e elas inventam coisas como segunda linha, linha imaginária, postar atrás da bola, um amontoado de conceitos abstratos distantes do futebol. Com isso, tentam transformar o entretenimento em algo complexo e sério. Ah, deixa isso para lá, apostem em bons narradores, é o suficiente para fazer do jogo um bom programa de televisão.