Mico-leão-dourado, as tartarugas e os camisas 10 estão em extinção. Essa rara espécie para quem gosta de futebol está sofrendo um processo de erradicação severa nos últimos anos. Culpa dos treinadores tatiquentos, dos empresários e de uma globalização “tipo-exportação” ao incentivo de formar pontinhas ciscadores e volantes armadores para serem vendidos ao futebol europeu.
Com um jogo de velocidade e de muita força física, focado na intensidade, praticado nas principais ligas do futebol europeu, o 10 ficou sem espaço, foi sendo cortado na base, empurrado para frente, para o lado ou para trás. Como Estevão nosso potencial futuro 10, na base desfilava pelo meio, no profissional foi jogado para o lado do campo e se tornou um pontinha direita. E foi vendido.
Nessa Copa tenho reparado em uma nova fauna de camisas 10, com diferentes características, movimentações e nem tão clássicos como aqueles que víamos desfilando nos gramados com certa frequência, novas espécies de camisas 10.
Essas aves-raras estão desfilando em nossas telas nesse mundial & listo alguns que estão me surpreendendo.
Matheus Cunha: Esse é fruto do futebol brasileiro, mas já com uma formação europeia, atua como 10 e 9, circula na zona morta do campo, entre um zagueiro e um volante, sempre disposto a ajudar, se adapta ao estilo do treinador e pode ajudar com passes como esse meia vindo do lado ou do centro, e pode chegar na frente para fazer gols, é uma espécie de ponta-de-lança contemporâneo. Peça rara.
Tiago Almada: Almada teve sua formação nas bases argentinas, o país que mais produz esse tipo de espécie nos dias atuais, por lá, eles cultivam o enganche, esse meia que joga solto, livre pra pensar e apresentar soluções criativas para o time, um arco para flechas. Com sua passagem pelo futebol brasileiro e agora na Europa, tem sido deslocado para o lado, prejudicando um pouco seu talento, mas protegendo seu corpo franzino das pancadas da zagueirada. É dos mais parecidos com os 10 clássicos.
Michael Olise: Esse é uma ave-rara, atuando espremido do lado do campo na Alemanha no forte Bayer de Munique, consegue ditar o ritmo do time da ponta direita para o centro, faz o time alemão ficar penso e na seleção francesa jogando solto no gramado, só falta fazer chover. Parece ver o que ninguém vê, acha passes onde parece impossível caber uma bola, parece ser descendente dos grandes camisas 10 mundiais e criar um novo estilo de 10, um fenômeno da natureza que não acontece todo dia. Uma nova espécie surgindo.
Harry Kane: O 10 da Inglaterra joga de 9, muitas vezes enfiado entre os zagueiros, mas não se engane, ele arma, abre espaço, é capaz de ser cerebral e é dele que se espera os lampejos de genialidade, me lembra o estilo de Tostão, um nove com cara de 10, clássico e artilheiro. Uma espécie tão rara que os ingleses não conseguem catalogar seu estilo de jogo.
Martin Odegard: O norueguês é uma espécie interessante, parece mais um 8, tem jeitão de 8, ataca como um 8 e organiza o time com tranquilidade, é da mesma espécie dos clássicos camisas 10, segura o jogo, gosta da bola e é retribuído por ela, que acena para o norueguês e segue suas ordens, deixando seus colegas na cara do gol, ele faz o pif na hora certa, faz parecer fácil jogar ao seu lado, talvez seja. Uma ave ainda a ser estudada nos próximos anos.