PERCURSOS

Confesso que o percurso do ônibus da seleção brasileira entre o hotel e o estádio me emociona legítima e infantilmente. Sinto que lá dentro carregam-se esperanças, redenções, alegrias iminentes, possibilidades de abraços, gritos e choros.
E memórias insistentes.
Ainda sobre percursos. Lembro que em 62, da janela do meu quarto num prédio da Tijuca, eu vi o Constellation da Panair, escoltado por caças da época, revoando a cidade até se aproximar do Galeão, na Ilha do Governador, bem na direção oeste do meu olhar mais atento que um controlador de voo. Iam e vinham à minha janela, como se me saudassem. A bordo, os bicampeões do mundo, em seus ternos bem cortados, suas gravatas tronchas de cansaço, seus sorrisos justos, me embeveciam só de imaginar que estariam perto de mim. Ou, quem sabe, acenando para mim.
Copa tem dessas coisas.
De quatro em quatro anos percorrem lembranças eternas, coisas que independem das performances do time brasileiro. Já ganhei, já perdi, já chorei, já pulei em sofás até quebrar. Numa dessas, minha mãe disse que mandaria a conta do conserto para o Clodoaldo, por aquele gol maiúsculo e providencial contra o Uruguai em 70.
Escrevo na semana em que o Brasil tem a Noruega no percurso, para fechar o domingo. Ou a esperança. Não sei que emoção me veste agora. Se a euforia persistente do jogo contra o Japão ou a consciência assustadora de que do outro lado estará um timaço, com seu cometa goleador fenomenal, cara de bebê ajustado grandalhão por
Inteligência Artificial, jogador completo, forjado pela natureza e leite norueguês.
Não sei o que vou sentir quando o ônibus do Brasil iniciar seu percurso para o estádio. Aconteça o que acontecer, que a maturidade me ilumine a amenizar uma decepção. Faz parte. Ou me liberte a esvair em lágrimas e rouquidão por mais uma emoção que finca na memória. Também faz parte. Aliás, a melhor parte do percurso.

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