Brasil e Japão parecia um fantástico episódio de anime ou de Pokémon na visão dos três torcedores mirins que decidiram sofrer juntos no sofá da minha casa. Entre um salgadinho e um suco de uva, veio um suspiro atravessado com o gol japonês. “Se fosse o Cássio”, repito comigo desde 2018.
O segundo tempo começou em festa entre os meninos com a entrada do Endrick. Eu tomei um susto com a volta do amarelado Casemiro e a sua volta por cima com o gol de empate. A cada drible, um pedaço da sala se levantava; jogada sensacional de Vini Jr, mas Suzuki e a trave salvaram o Japão, deixando o grito entalado na garganta; a cada erro bobo, subia o nervosismo e a irritação com o Danilo. Rayan corria, Gabriel Magalhães se esforçava e o Japão assustava.
O descompasso dos brasileiros nos empurrava para o sofrimento de mais uma prorrogação e as lembranças das últimas Copas faziam a pressão aumentar no sofá. De repente, entre tropeços na própria ansiedade, um desenho perfeito se fez: passe milimétrico de Bruno Guimarães no meio dos samurais azuis; chute de Martinelli; novamente Suzuki desviando, mas desta vez a trave quis ser compatriota. Gol do Brasil nos acréscimos (!!), como se o roteiro quisesse apenas prolongar nossa agonia até os segundos finais.
O jogo deixou de ser apenas Copa do Mundo e virou uma daquelas cenas em que o herói cai, levanta e acerta um chute para mostrar que ainda está vivo. Naquele instante, ficou claro que o Mister italiano tinha um plano: manteve Casemiro, gol da Seleção; colocou Martinelli, lágrimas por todo este Brasil.
Cinco minutos depois, os torcedores mirins pegaram a bola e foram brincar eufóricos lá embaixo, juntando-se a outras dezenas que sonhavam o mesmo: nos seus corações, todos eram Brasil na Copa do Mundo.
Da janela, eu via cada pequeno assumir o papel de herói com o passe mais espetacular, o chute mais poderoso e a defesa que o Alisson jamais faria. A bola, incansável, suava de um lado para o outro.
Daqui do vigésimo quarto andar, eu assistia ao jogo que jamais passaria na CazéTV e lembrava dos meus momentos épicos, que só terminavam pouco antes da obrigação do jantar.
O roteiro de Brasil e Japão não foi dos mais belos, mas percebi que, no fim das contas, ainda é na voz rouca da infância que a gente aprende a torcer de verdade. O dia foi emocionante, com aquela vontade inocente de se tornar eterno.