Os futebolistas alemães são os que jogam mais feio em toda Via Láctea. Jogam feio e se orgulham. Jogam um futebol tão feio que já foram chamados “perna dura” ou “sem cintura” de tão presumíveis. Para não ficar tão constrangedor para os conterrâneos de Bach, Goethe, Beckenbauer, Werner Herzog e Thomas Mann, se pega leve com os germanicos e chamamos seu futebol horroroso de “pragmático”. Mas tem seus méritos, reconhecemo-lo: definí-los como “pragmáticos”, para eles é música: jogam feio, mas ganham. São tetracampeões do mundo e em seu país o futebol é coisa séria, as escolas de futebol são centros de integração dos jovens e se multiplicam pelo país, assegurando a prática do desporto como parte da formação do indivíduo, o sucesso desportivo é mera consequência.
A Escola Alemã de futebol, no entanto, continua irredutível, quiçá fiel a seu espírito e mantendo a graça de um boldogue. Isto não os desmerece, ao contrário, ao contrário, tem mérito: são responsáveis por uma das maiores escolas de goleiros do mundo e ter metido 7 x 1 no Brasil foi um feito inigualável. Aquilo não foi jogo de futebol, foi a vingança, com requintes de crueldade do futebol arte contra o “pragmatismo”: meteram 7 e se não tivessem ficado com dó, poderia ter sido 10 ou 12. Alemanha 7 Brasil 1 é pura e simplesmente impossível de esquecer. Mas o que o pragmatismo alemão não leva em conta é que praga de brasileiro pega e desde aquela fatídica tarde nunca mais os alemães ganharam coisa alguma. Se valer um conselho à Comissão Técnica deles, oiçam: deixem o orgulho de lado e consultem um Pai de Santo para desfazer o feitiço!
Falar em feitiço, no jogo Alemanha e Paraguai, o feitiço literalmente jogou contra o feiticeiro. Os alemães deram o azar de enfrentar um time que joga muito mais feio do que eles! Embora sejam latinos como nós, os paraguaios não tem o menor constrangimento em construir uma muralha na frente do seu gol. A seu modo, os paraguaios deram um show nos alemães: deram a bola gentilmente ao adversário, mas trancaram a porta, deixando a pátria de Beethoven na tempestade e no escuro. E os paraguaios detonaram! Deram aula magna de como se joga feio! Os alemães não deram pro gasto!
Porém, sejamos justos. Os paraguaios jogam feio, mas tem seus méritos: seu goleiro, Orlando Gil, é considerado o melhor da Copa até agora e seu zagueiro Gustavo Gomez está entre os melhores do mundo. E tem pedigree e história: o lateral Arce e o zagueiro Gamarra, foram grandes em seu tempo. Tudo isto mostra que o futebol tem múltiplas faces. Nem tudo é o que parece e não existe “um só futebol”, mas “várias maneiras de praticar o futebol” e dentro das regras. O futebol é tão variado quanto as culturas, agrega aspetos culturais, nos ensina Zé Miguel Wisnik no seu “Veneno Remédio: o Futebol e o Brasil” Por isso é tão apaixonante e imprevisível – apesar do famigerado pragmatismo que tenta aprisionar e limitar a criatividade.
O OLÉ!
O jornal argentino Olé, criado para azucrinar brasileiros, criticou o Brasil pela nossa “Vinidependência”. Gozado! Todos os gols da Argentina foram feitos pelo Messi – inclusive um gol onde ele iniciou e terminou a jogada, como que mostrando ao companheiro como se faz. E ninguém do lado de cá da Tríplice Fronteira se ocupou de lembrar los hermanos de uma “Messidependência”. Cada uma! Olé!
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Joca
Sociólogo, ex funcionário público. Autor d'A Invenção da Palavra e Pequena História do Mundo (Fábulas voltadas para o universo infantil e infanto juvenil). A publicar: O Presidente Que Burlou o Golpe (fábula política).
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