Nunca foram só palavras

A copa do mundo de 2018 chega ao fim com um surpreendente embate entre França e Croácia. Muitas análises e interpretações sobre o fato são expostas na mídia. Desde teorias sobre a evolução/involução do futebol até as que enveredam pela simbologia política, cultural, ideológica que o esporte pode apresentar.

Muita bobagem e muita coisa interessante também. A leitura de toda essa verborragia me fez lembrar de uma conversa com um amigo da época do Mestrado em Literatura. Dizia ele que, depois de tanta teoria, de tanto escarafunchar textos tentando entender o que estava por trás de cada palavra, o seu maior receio era perder o prazer da leitura. Temia se descobrir incapaz de momentos de pura fruição. Uma perda da inocência que desgastava exatamente o que um dia foi o bem mais precioso. Aquilo que o levou a gostar tanto de livros.

É nisso que penso quando vejo os que se dão ao prazer de ver um jogo de futebol, ou de reunir amigos para um momento de pura descontração, serem descritos como ingênuos, alienados, etc. E os conscientes gritando insultos, às vezes floreados de análises profundas. Aqui vai o meu pedido de desculpas àqueles que entendem o futebol (ou o esporte) como controle social (controle de tensões) ou difusor de ideologias. Também peço desculpas aos que veem no jogo França e Croácia um embate entre neofascismo x multiculturalismo. Peço desculpas, porque quero apenas ter o prazer de ver uma partida de futebol.

Quero esse prazer por quê? Vamos lá! Na guerra dos Balcãs, nos idos anos 1990 (ou guerra civil Iugoslava), você torceu por quem? Não sentiu nenhuma simpatia pelos croatas? E nos episódios de independência das colônias francesas, você ficou do lado de quem? Nunca torceu pela Argélia? Nos dias de hoje, eu sei que você viu as manifestações nacionalistas de jogadores croatas, mas tem assistido aos documentários sobre inserção de imigrantes na França? Você acredita mesmo que o multiculturalismo do futebol francês é uma representação da realidade? Ou, seria apenas uma conveniência da mesma forma que sempre foi a exploração de produtos valiosos das colônias?

Então, escrevo esta crônica antes do apito inicial da partida, com um singelo pedido: posso ter o prazer de ver uma partida de futebol? Que vença o melhor em campo! Se não vencer, pelo menos ganhará minha ingênua torcida. E, certamente, uma reflexão que me caia bem para o dia. Bom jogo!

[15/07/2018 – Croácia x Franca, Copa do Mundo de 2018]

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