O renascimento vem da morte

Eu, Matogrosso e o Joca vimos o jogo do Brasil aqui na minha casa pertinho do campo da Ponte Preta. Era para ser comemoração, mas terminou em baixo astral geral. Então eu argumentei que deveríamos tomar cerveja e afogar as mágoas no Bar Majestoso, em frente ao estádio, e homenagear as meninas. Bugrino, o Joca fez muxoxo, mas o Matogrosso, pontepretano que nem eu, pegou pesado e até fez rima:
– Sem mimimi, nhenhenhém ou xororô, vamos no Majestoso e acabô.
Ele ainda reclamou que era minoria, que aquilo era uma ditadura, que deveríamos ter assistido ao jogo na casa dele, no Jardim São Fernando, bem longe da Ponte. Imagine se a gente iria. A TV dele é analógica, 24 polegadas, ele põe Bombril na antena e, mesmo assim, não pega direito nem a Globo. Enfim, ele se pôs em pé e nos acompanhou.
– Que pena o Brasil ter saído tão cedo da Copa, lamentei.
Invocado, Matogrosso reagiu pesado também comigo:
– Quando o Brasil perdeu da Alemanha de 7 a 1 e quando foi eliminado pela Bélgica você não só não lamentou como torceu contra.
– A quem muito se deu, muito lhe será exigido.
– De onde você tirou isso?
– Da Bíblia. Jesus.
– É, agora você falou uma verdade.
– Sim, falei, mas essa sua frase é do Benedito Ruy Barbosa, Joca. Da novela.
– Eu gosto das novelas dele.
Chegamos ao Majestoso. Um dos mais fervorosos pontepretanos que eu conheço, o Sálvio, estava lá tomando cerveja cabisbaixo.
– Triste com as meninas?
– Elas foram valentes, mas fazer o quê?
– Esse e é meu amigo Joca, bugrino, mas gente boa.
– Prazer, Sálvio de Almeida ao seu dispor.
O Joca resmungou que eu não devia ter falado o time dele. Mas Sálvio rindo, disse:
– Não se preocupe, eu também tenho defeitos.
Cumprimentei o Carvalho e pedi para descer uma bem geladinha, três copos e três pastéis de carne, o melhor de Campinas.
– Eu dizia pra eles, Sálvio, que quem ganha muito tem de ser cobrado. Veja esse rapaz que todo mundo acha um fora-de-série.
– Eu nunca achei
– Pois é: sabe quanto ele ganha por ano? 91,5 milhões de euros. Nunca fez nada pela seleção, perdeu em 2014, perdeu em 2018, fugiu do 7 a 1 e fugiu da Copa América.
– É, uma vergonha. E nunca foi melhor do mundo
– E sabe quando ganha a Marta, seis vezes melhor do mundo?
– Por temporada, 0,3 do salário dele.
– E o pai ainda teve coragem de procurar o ministro da economia e o presidente pra pedir anistia.
– Pior: o ministro e o presidente o receberam.
– Vai lá você pedir pra abater 40 real do seu imposto de renda pra ver se consegue.
– Não é preciso ir na Europa. Aqui, qualquer jogadorzinho meia-boca ganha 600 mil por mês.
– Imagine todo mês pingar 600 mil na sua conta?
– Isso não é pingar é jorrar. Pingar é a minha aposentadoria de 1,7 mil.
– Então, devo ficar triste com o 7 a 1 contra a Alemanha ou o 2 a1 contra França?
Ficou todo mundo calado no bar. Então, pedi mais uma rodada de cerveja e três croquetes e o Matogrosso avisou o Joca que ele não ia comer nada igual na vida dele.
O Joca ficou em silêncio, como se meditasse e eu perguntei o que estava acontecendo e ele foi direto e seco:
– Você está demonizando os meninos fazendo deles os vilões e transformando as meninas em mocinhas. Isso se chama maniqueísmo.
O Matrogrosso foi ainda mais contundente:
– Uma coisa é torcer e apoiar. Mas você, além de torcer contra os meninos está vitimizando aos meninas.
E eu tive de concordar; eles estavam com a razão. De repente, olhei em volta e o bar inteiro tinha parado pra ouvir nossa conversa. Um silêncio pairava sobre o Majestoso. Eu baixei a cabeça e resmunguei:
– Joca e Matogrosso, vocês estão certos.
Ele não falaram nada. Joca comeu o croquete e Matogrosso tomou um gole da cerveja
– Eu estou chateado, perder assim, na prorrogação…
– Perder é ruim de qualquer jeito, falou Matogrosso.
– Agora você falou uma verdade, reiterou o Joca.
Então, resolvi fazer um discurso.
– Sem birra com os meninos, sem vitimização com as meninas. Contudo, é preciso aproveitar este momento único na história do futebol feminino. Se a semente não morrer não haverá fruto. O fruto foi plantado. Pela primeira vez a Globo transmitiu o futebol feminino. E narrado até pelo Galvão. Essa foi a primeira grande vitória. Há outras. Nunca se falou, se escreveu, se discutiu e se viu tanto futebol feminino como em 2019. A semente foi plantada e morreu para renascer. É hora de pensar na nova geração que virá, nas categorias de base, no fim do preconceito, no campeonato brasileiro, é hora de dar valor para quem está afim de representar o Brasil com amor pela camisa e não pela glória pessoal, é hora dessa “gente bronzeada mostrar seu valor”. Cabeça erguida, meninas, vocês foram valentes jogaram muito bem e mereciam a vitória. Agora é pensar no futuro, que está muito perto. O futuro começa amanhã.

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