Tudo começou com Cesária Évora. A voz dela chegou primeiro, como chegam certas brisas marítimas: sem pedir licença. Depois vieram Assol Garcia, Bau, Humbertonia, Teófilo Chantre, Tito Paris e uma infinidade de músicos que transformam saudade em melodia e fazem o Atlântico parecer um instrumento de cordas. Sempre achei difícil explicar a sonoridade cabo-verdiana. É como se o samba tivesse embarcado num navio, passado uma temporada em alto-mar com um cavaquinho, um piano e alguns violões baixos, e voltado para contar histórias.
Quando soube que a Ilha Azul estava na Copa, adotei a seleção no ato. Toda Copa precisa de uma segunda pátria, ainda que provisória. Alguns escolhem pela camisa bonita. Eu escolhi pela trilha sonora.
E então veio o jogo contra a Espanha. E veio Vozinha.
Vamos combinar: um goleiro chamado Vozinha já entra em campo com a torcida garantida. No meu caso, ainda havia um detalhe afetivo. Era exatamente assim que meus filhos chamavam minha mãe. De modo que, quando Vozinha começou a defender tudo o que lhe aparecia pela frente, não vi apenas um goleiro inspirado. Vi uma homenagem familiar.
Cada defesa parecia dizer à poderosa Espanha: “Òji ka, nha fidju” (Hoje não, meu filho).
No fim, vibrei como se tivesse parentes em Mindelo. E talvez tenha. Afinal, depois de tantos anos ouvindo os sons de Cabo Verde, já me sinto um primo distante da ilha. Quanto à nossa seleção, resta assistir às atuações de Vozinha e tomar notas. Há lições que nem os melhores técnicos conseguem ensinar.