O MANTO DOS MANTOS

É a sexta Copa do Mundo daquela camisa amarela assinada pelo rei Pelé. 20 anos de torcida, sempre com a mesma camisa, religiosamente.

Perfeitamente natural, mandinga das mais compreensíveis, não tivesse a tal camisa sido mantida intacta desde que recebeu a sagrada assinatura do Rei do Futebol. Em 2000. Intacta, entende? Significa intocada. É usar e guardar, no estado, desde o inesquecível encontro com o ídolo. O que confere à camisa toda uma vivência. Manchas, rasgados, desfiados e, como não poderia deixar de ser, cheiros. Não tente simplificar, imaginando o tradicional cheiro de suor. Há um riquíssimo blend de odores dos mais diversos matizes.

O problema é que a camisa comparece em todos os jogos do Brasil e é ela que, orgulhosamente, recebe os amigos em casa. Não minimize a situação, meu querido, a camisa abraça. É do tipo afetuoso, abraça muito. A cada gol, a cada pequena alegria.

Assim, a cada amplexo, podemos saborear uma diferente mistura de cheiros. Longínquos, raros, misturados entre si, um verdadeiro quizz olfativo.

Mas não se atenha apenas aos cheiros. Há as manchas. Das mais variadas e estranhas que jamais vi. Algumas parecem especialmente ameaçadoras. Percebem-se nitidamente os resquícios distantes de uma inesquecível feijoada ali pela região do abdome. Fora alguns pingos de características fugidias e inescrutáveis.

A camisa é ostentada como um lábaro, um pavilhão heróico e retumbante. E a gente meio que quase torce contra a seleção brazuca, temendo o inevitável abraço carregado de biografias.

Há algumas Copas do Mundo temos testemunhado o envelhecimento dessa armadura emblemática. E compartilhado de suas substanciais características estéticas e fragrantes.

Estamos nas quartas de final. Pelo que tudo indica, no próximo embate o Brasil terá mais um trunfo capaz de aterrorizar os enormes beques da Bélgica: o poderoso eflúvio que emana de um certo apartamento no Humaitá.

Se o Galvão Bueno pudesse sentir, lá de Kazan, o magnífico buquê de essências, certamente ouviríamos o seu bordão: “o que é isso, meu amiiiiigooooo!”

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