O DIA EM QUE A BOLA PERDEU A COPA DO MUNDO.

Ela estava rolando freneticamente no gramado? Nem vi. Estava fixado naquela figura loura de camiseta xadrez vermelha e branca, ao lado de um homem sisudo e ar de poucos amigos. Estava embasbacado com aquele sorriso, com aquela placitude.

A bola bem que se esforçou, traçando exatas rotas aos pés de um gigante Modrić, serpenteando arisca aos pés do jovem Mbappé. Mas eu estava definitivamente sequestrado pelo sorriso maternal daquela mulher. Que consegue tratar com simpatia até mesmo um ser tão caricatamente emburrado. Emburrado no mais lato sentido do termo. Também ali ao seu lado, o sorriso de lagarto do outro companheiro de evento não me atraía mais o olhar do que a complacência daquela moça para com ambos.

Kolinda Grabar-Kitarović foi o foco de minha atenção ao longo de toda a transmissão. Quando ela surgia na tela, o futebol perdia todo o meu interesse. Não é esse tipo de interesse banal e boçal de brasileiro, carioca, misógino e machista. É mais do que isso. Me interessa a diplomata, a política, a presidente de um país que tem um passado tão eivado em dissabores e um histórico de proximidades perigosas com líderes absolutistas. E que, mesmo assim, consegue ser plácida, amistosa e modesta. Seu sorriso desarma, enternece, acalma e nos faz crer que há um fiapo de esperança, uma alternativa aos sisudos e lagartos.

Houve um breve momento em que minha atenção foi captada para um pequeno grupo de invasoras no gramado, imediatamente contidas pelos seguranças e retiradas de cena. Talvez por muito tempo. Eram feministas. Seu gesto tresloucado apenas contrastou mais uma vez a truculência reinante no mundo com o sorriso gentil e ameno da presidente croata.

Kolinda parece nos dizer, com o seu sorriso, que há uma outra saída para esse mundo mau humorado e histérico.

Enquanto eu viajava em seu doce semblante, a seleção do país dela ia perdendo a taça para os franceses. Com honra, com mérito e com muita dignidade. O que, em nenhum momento, lhe tirou do rosto aquele sorriso quieto e manso.

Quando, finalmente, os jogadores vieram ao seu encontro, ela os esperava, completamente encharcada pela chuva que desabou sobre Moscou e também por conta da notória deseducação do anfitrião sisudo. Pronta para dar a cada um deles um abraço carregado de ternura, de aconchego e de conforto.

Agora, a Copa do Mundo se foi. Kolinda, também. Como já havia feito em outros jogos que foi assistir na Rússia, pegou um vôo de carreira pago do seu bolso e voltou para a sua casa em Zagreb. Ainda não tive notícias do prefeito de uma cidade fluminense que foi visto em um dos jogos do Brasil em São Petersburgo, em companhia da mulher, secretária de educação.

Ah, Kolinda, tomara que um dia você venha ao Brasil nos dar um abraço, que a gente tá precisando.

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