Neymar e seu labirinto

Neymar tem um ovo (de galinha, não me interpretem mal) ao alcance da mão. Em vez de pega-lo, prefere perseguir a galinha mais arisca do terreiro e obrigar a penosa a por um ovo só para ele. A cena deve incluir um galo mal-humorado bicando as canelas do craque. Se o terreiro for irregular, com buracos e atoleiros que provoquem tombos e joelhos ralados, melhor ainda. Ao final, Neymar terá em mãos o ovo mais duramente obtido na história da humanidade. Ele não se contentaria com nada menos do que isso.
A objetividade nunca foi o forte de Neymar Jr em campo ou fora dele. E isso inclui a avaliação do que ocorre à sua volta. Para o nosso camisa 10, vencer não basta. A vitória satisfaz apenas quando ele pode esfregar seu triunfo nos cornos daqueles a quem chama de “anti” ou “haters”. Neymar precisa sempre construir uma narrativa onde ele interpreta a vítima, o perseguido, o coitadinho que, na base da genialidade, supera adversidades que só ele enfrenta na vida.
Voltemos ao final da Olimpíada de 2016. Brasil medalha de ouro. Neymar dispara na direção da plateia. Ao chegar lá, ele aponta o dedo para alguém no meio da multidão. Esbraveja, dispara impropérios, ameaça escalar a mureta. Transtornado, segue ameaçando mesmo ao ser retirado dali por outros jogadores. Essa cena se tornou padrão. Por quê?
Neymar gosta de sofrer? Não. Mas ele é varado por uma única certeza: é o maior jogador de futebol de todos os tempos. Demonstra fé inabalável na crença de que o inventor do futebol tinha dons premonitórios e pensou nele, Neymar Jr, para num futuro remoto elevar o esporte à categoria de arte. Assim, qualquer crítica é recebida como ofensa pessoal, parte de um complô perverso para impedir que o plano do criador de futebol se concretize.
Como a autocrítica não integra o repertório intelectual do suposto craque, ele veste sua armadura dourada, salta para o lombo de um alazão branco e parte para derrotar todas as vilanias do mundo. Suas reações são conhecidas nesses momentos: cara fechada durante os treinos, recusa em conceder entrevistas, respostas malcriadas e, mais exótico ainda, a insistência nos mesmos erros que seus críticos apontam, como se quisesse derrotar seus inimigos imaginários jogando o jogo deles para humilha-los. E lá vem um corte de cabelo ainda pior que o anterior. E tome prender a bola, procurar a jogada mais difícil, ignorar companheiros desmarcados, retardar o ritmo do jogo e, sobretudo, apelar para acrobacias circenses. Ai a coisa complica, já que Neymar é um canastrão como ator. Mergulhos no gramado, decolagens espetaculares e cambalhotas se sucedem ao menor toque dos adversários. Importante: os zagueiros adversários também são alvo de sua fúria, pois ousam perturbar a plena manifestação seu talento.
Neymar tem aliados, contudo. Boa parte da imprensa o trata como um Eike Batista de chuteiras, mais valioso pelo potencial de realizações do que pelo que produz de concreto. Ele ainda conta com uma tropa de choque para o trabalho mais sujo: os “parças”. Na aparência, os “parças” não passam de desocupados que ao serem convocados embarcam na classe executiva de um voo transatlântico e se juntam a Neymar por dias (ou semanas) onde quer que ele esteja (com tudo pago, claro). Claro que a presença desses amigos de aluguel é apenas um sintoma da carência de Neymar, mas todos devem trabalhar. Eles monitoram sem descanso o noticiário esportivo e distribuem sopapos virtuais em todos os que se atrevem a criticar seu deus nas redes sociais. Ou seja: mais um capítulo da saga do herói perseguido.
Isso resulta em outra encrenca. Como qualquer atleta, Neymar odeia perder. A diferença é que além de mau perdedor, ele é um péssimo vencedor. Aproveita suas conquistas para destilar ressentimento, não júbilo. Isso não ajuda a construir a imagem de herói, mas a de um menino mimado e tratado pelos amigos como se fosse um bibelô de cristal. Diariamente o noticiário relata companheiros de seleção afirmando que estão ali para proteger Neymar, preserva-lo das agruras da luta contra o seu exército de detratores.
Neymar é um jogador muito bom. Vai se tornar ótimo se concluir que não será o melhor porque assim decidiu, mas porque o mundo se rendeu a esse fato. Enquanto isso, vai seguir pela vida acumulando milhões em dinheiro, desafetos e desapontamentos. Dando topadas em obstáculos que ele mesmo distribuiu pelo caminho.
Afinal, até o momento Neymar demonstrou que pode driblar todos os zagueiros do mundo, mas não consegue driblar a si mesmo.

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