Salvem a mãe do juiz

– Rezei tanto para esse menino ser médico ou advogado!
Ela repetia entre soluços.
– É sempre assim. Ele lá, se sentindo vencedor, e eu aqui tapando os ouvidos, para não ficar deprimida por conta dos palavrões que me atingem em cheio.

Sem saber o que fazer, ofereci o meu ombro e dei umas palmadinhas nas suas costas enquanto pedia uma limonada, um chá e um café com biscoitinhos para adoçar o pranto.

Mas, essa conversa é memória de outros campeonatos. Atravessa meu pensamento, de relance, enquanto ouço um rapaz bem-falante explicar como funciona o tal VAR, antes da estreia do Brasil na copa de 2018. Um toque de transparência àqueles lances que mexem tanto com nossas emoções, concordei entusiasmada.

É natural. Como se não bastasse a embriaguez a que nos entregamos durante uma partida de futebol, os ânimos ficam exaltados quando somos vítimas de uma falha da arbitragem. Não falo daquelas discussões bobas de torcedores que se sentem injustiçados a cada vez que uma decisão se faz em cima de um erro do seu time, que eles se recusam a admitir. Afinal, o desejo de vitória parece ser o que nos move. E isso se manifesta instintivamente e com muita força, como se um simples jogo fosse uma questão de sobrevivência. Falo mesmo é da possibilidade de erro. Falta ao cérebro humano as condições frias de uma máquina conectada a olhos instalados em pontos estratégicos, capazes de registrar todos os ângulos. Como esquecer da mão de deus que classificou a Argentina em uma jogada duvidosa de Maradona, não é mesmo?

Bom, agora tudo se resolve. Um sistema que pode ser consultado ou pode alertar o juiz sobre uma irregularidade não percebida é um alívio. Vai salvar minha amiga da depressão, pensei enquanto repassava a informação por WhatsApp. Durou pouco a minha alegria. Foi o Brasil entrar em campo e começar a polêmica. Um empurrãozinho abre a defesa para o gol do time adversário. Depois o menino Gabriel sofre um pênalti. Para perplexidade geral da nação, as faltas não foram marcadas pela arbitragem de campo e nem pelo tal sistema de alerta. Um empate pálido deixa na garganta um gosto desanimador pronto para encontrar um culpado.

Dizem os moços bem-falantes, que se trata de “erros com convicção”. Ou seja, o árbitro de vídeo viu que o juiz de campo viu. Também viu que o juiz decidiu por convicção de que o tal erro não alteraria o andamento da jogada. Sim, o olhar das câmeras mostra as faltas. Porém, há sempre uma brecha para a interpretação, essa palavrinha que atormenta a vida ao contaminar o limitado alcance da retina humana.

– Sossega, querida! Hoje é jogo do Brasil, ele não entra em campo… e quando ele entrar teremos o VAR para salvar os seus ouvidos.

Era o que dizia a minha breve mensagem àquela mãe aflita. Pensando melhor, devia acrescentar que de nada adiantaria seu filho ser médico ou advogado. A decisão seria seu destino e não haveria como escapar das armadilhas que o jogo apronta, dentro e fora dos campos de futebol. Diversificar o olhar é esperança a ser treinada. Talvez, seja isso que se pendure naquela linha tênue que chamamos justiça.

[Brasil x Suíça, Copa do Mundo da Rússia 2018]

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