Sem querer, um conto russo

Os ânimos se acirraram em Sochi quando se ouviu o apito final. Veio depois o pedido de desculpas dos alemães pela provocação: “Foi um jogo emocional!”. Um jeito de dizer: foi sem querer. De imediato, lembrei de um conto de Tolstói que traz esse título na tradução de Rubens Figueiredo, e fala de fraqueza humana e descontrole.

No conto, o jogo é de cartas. O protagonista perde tudo e se desespera, sendo salvo pelo pensamento frio de sua esposa que lhe aponta uma solução um tanto esdrúxula, se não, desonesta. Termina com o filho do protagonista cometendo uma pequena falha, entrando em desespero e sendo salvo pela astúcia da irmã que o faz pedir desculpas e dizer: foi sem querer.

Mas, o fio que perpassa os dois contos russos, o de Tolstói e o que presenciamos em Sochi, é o significado da palavra competir. Qualquer dicionário o traz como entrar em concorrência com outro ou rivalizar. O jogo foi, então, palco de competição ferrenha. Em Sochi havia dentro do campo, de um lado, uma equipe disposta a suar muito para sagrar-se melhor, superando todas as adversidades impostas pela situação. E essas não foram poucas. Do outro, outra equipe que até o último minuto tinha nas mãos uma chance, perdida no instante final.

Fora da linha de campo, a competição era de outra ordem. Como na narração de Tolstói, a concorrência se dava dentro de cada um e exigia o saber lidar com desejos e emoções. Alguém se excedeu na rivalização originando o motivo do pedido de desculpas.

O jogo, de qualquer natureza, parece ter esse poder de nos ensinar a lidar com o mais frágil e o mais forte que competem dentro de nós. É o que nos dizem páginas e telas. Enquanto não aprendemos, seguiremos, em outras gerações, repetindo: foi sem querer.

[Alemanha x Suécia – Copa do Mundo da Russia, 2018]

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