Confissões de uma bola

Sou uma bola. Imagine você que, depois de tudo que passaram minhas ancestrais, eu, produto da evolução, me apresento assim lisinha e com gomos unidos termicamente. Os pontos asquerosos das costuras desapareceram e já não prejudicam o meu deslizar faceiro na grama ou no ar. E aqui estou, em meio a uma copa.

Vaidosa ao extremo, não vou aqui me fazer de rogada e dizer que não me encanta saber que o mundo inteiro está de olho em mim. E a quantidade de pernas fortes correndo loucamente para me alcançar, hein? não é de encher de inveja muitos corações? É certo que os chutões me enervam, mas as cabeçadas tão pertinho dos olhos me cortam o fôlego. E quando minha velocidade é matada no peito? É de arrepiar os pelos que não tenho. Sinto de pertinho as batidas do coração daquelas criaturas compenetradas que, muitas vezes, se acham mais importantes do que eu. Dizem ser meu criador. Ah! os humanos, tão tolinhos. Será que não se dão conta de que sem mim não haveria o futebol e, nesse campo, eles nada seriam?

Mas, temos muito em comum. Penso nisso enquanto rolo entre os pés de um pequeno deus venerado por eles e por mim. Tive a sorte de, assim de cara, ser jogada no mesmo gramado que Messi, pasmem! Pena que uns atrevidos que nasceram entre fiordes e vulcões insistam em não me deixar sentir o peso da sua chuteira ou da precisão dos seus pés. Mas, por mais que façam, não conseguem impedir que meus ouvidos acompanhem o avolumar do canto das vozes latinas, a cada toque sutil ou drible ligeiro que fazemos juntos. Claro que há também os urros vikings, sempre que sua força me assusta e me atira para fora da pequena área.

Foi em uma dessas que os vi atropelar, por trás, aquele que me receberia dos divinos pés para arrematar a jogada em direção ao gol. Ouvi, de repente, o apito. É a nossa vez! Pensei, ao sentir suas mãos me acariciar para me posicionar na marca do pênalti. Havia, naquele instante tão íntimo, um olhar penetrante querendo dizer algo muito especial. Meu coração disparou ao me imaginar sacudindo a rede, como sua parceira, sob os olhares do mundo. E a quantidade de vezes que a imagem se repetiria, hein? O céu, enfim!

Luvas grosseiras me despertam daquele torpor vaidoso. Não foi dessa vez. Ah, os humanos e seus pequenos deuses recheados de humanidade. Falhos como eu, sua criatura. De longe ele, meu pequeno deus, grita para mim: vamos recomeçar! Recomeçamos. No entanto, quarenta e cinco minutos depois, foram os urros e seus deuses silenciosos, que calaram os cantos. Merecidamente, devo reconhecer.

Vai futebol, ensina que somos muito mais que uma bola rolando!

[Islândia x Argentina – Copa do Mundo da Rússia, 2018]

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