Schadenfreude!

O futebol é o esperanto que deu certo. E isso é lindo. Até porque alguns idiomas tem palavras e expressões intraduzíveis de forma direta ou compreensível para os outros países. Assim como “saudade” só existe no Brasil – com tradução aproximada, mas sem o sentido completo em outras línguas – no alemão também existe uma palavra com significado ainda mais proprietário e específico: “schadenfreude”.

Poderia estar no cardápio: joelho de porco com batatas e schadenfreude. Quem sabe, um tipo especial de salsicha? A dica seria servi-la acompanhada de uma mostarda mais suave, harmonizando perfeitamente com caldo de cana bem geladinho para refrescar a torcida durante o verão russo.

Qual foi a última vez que você fez a revisão no seu schadenfreude? A última novidade da tecnologia automotiva alemã? Quiçá uma peça que controla a suspensão independente ao mesmo tempo em que transforma a energia cinética da frenagem em energia elétrica para que o encosto de cabeça do motorista lhe faça cafuné (palavra ainda sem tradução por lá).

Ou uma vertente da arquitetura germânica? Prédios desenhados ao estilo Schadenfreude. Uma mistura de concreto e vidro, com tijolinhos aparentes e grandes espaços para circulação de pessoas e gatos. Do lado de fora, destaque para os galhos de madeira embutidos nas pilastras, projetados para sustentarem casinhas de João-de-Barro.

Bonito seu Schadenfreude, hein. Porventura algo relacionado com a moda? Um novo tipo de topete ou corte de cabelo? Uma nova altura de saia? Uma pantufa que sobe até o joelho? Aquela calça que a pessoa tira só com um puxão, soltando o velcro? Mas com certeza nada com a simplicidade, o conforto e a alegria de um bom par de chinelas Havaianas.

Talvez o nome de uma bandeja maior que as outras, usada especialmente na Oktoberfest em Munique, para transportar o maior número de canecas de chopp por vez. “Olha o schadenfreude chegando!” gritaria o mais animado da mesa, já pegando duas canecas e perguntando se não teria um queijinho Serra da Canastra pra acompanhar.

Mas não. Nada disso. Schadenfreude significa – imagine você – veja que impagável ironia: o sentimento de alegria com a desgraça alheia.

Então, se você comemorou o primeiro gol da Coréia do Sul duas vezes – antes e depois da confirmação pelo árbitro de vídeo – e mais ainda o segundo gol da eliminação alemã, parabéns! Você experimentou “schadenfreude”.

Um schadenfreude que estava engasgado há 4 anos. Um schadenfreude que começou tímido logo no primeiro jogo dos atuais campeões e que depois ganhou o mundo em berros de “CHUPA!”, de “TOMA!”, de “VAZA!”, com direito a gargalhadas e abraços calorosos em desconhecidos.

E sob nosso imenso schadenfreude, os alemães viram que “das Leben ist kein Ponyhof” – em outras palavras, que a vida não é uma fazenda de pôneis. E se haviam encomendado a festa antes da hora, “hopfen und Malz ist verloren” – ou seja, lúpulo e malte foram perdidos.

Auf Wiedersehen, Deutschland.

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