Não entendo nada de futebol

A Copa do Mundo começou e, com ela, uma profusão de mesas redondas, textos e conversas de bar (ou melhor, conversas de redes sociais) sobre as estrelas e destaques, os possíveis confrontos e, sobretudo, a configuração tática das equipes. Mas você sabe o que é um líbero ou um segundo volante? O que faz um meia de ligação ou um ala? Futebol vertical é chutão pra cima? E o futebol total da Laranja Mecânica? E o 3-5-2 Dinamarquês? O 4-2-4? 4-4-3? 4-3-2-1 é contagem regressiva para o quê?

Minha resposta para essas perguntas é: não sei do que você está falando, meu chapa. Minha experiência em campo foi encerrada no início da adolescência, uma carreira meteórica no Bonfim Recreativo e Social de Campinas. Enquanto goleiro do time, cabia a mim não deixar a bola entrar, gritar “é minha!” quando a bola se aproximava da área ou berrar um sonoro “sai!” quando o rebote saía da área (a gente falava rebote, não “segunda bola”) e, por fim, mandar aquele bolaço do tiro de meta para frente, com o objetivo estrito de cruzar a linha do meio de campo. Depois de pendurar as chuteiras e guardar os titulares do futebol de botão em uma caixa de sapato, me afastei das minúcias esportivas. Já assumi no título e repito sem orgulho e com alguma vergonha, afinal, trata-se do país do futebol (ainda é?): não entendo nada de futebol.

Por isso, faço outra pergunta: precisa entender disso tudo para gostar de futebol?

A estratégia sempre fez parte de confrontos, sejam quais forem. Não é de se espantar, portanto, a história do futebol ser marcada pela evolução dessas táticas e, consequentemente, estar entre o principal critério de avaliação dos comentadores de plantão. Pela internet se encontra uma série de matérias explicativas e analíticas sobre o tema. Recomendo o Tostão sendo didático ao explicar com jogadores de botão e esse histórico da evolução das estratégias no futebol publicada no jornal Nexo.

Para mim, corneteiro de plantão, acompanhando os jogos da Copa (e mesmo dos campeonatos nacionais), sinto intuitivamente essas mudanças. Os jogadores não correm mais de lá para cá atrás da bola, nada de chutão para frente ou bola alta na área toda hora, mas respondem a um rigoroso ensaio, trocam passes curtos e rápidos, deslocam-se em blocos tão concentrados que é possível ver as linhas da estratégia que respondem. Time compacto, leitura de jogo e reposicionamento constante – eis o futebol moderno.

No entanto, penso que não seja preciso entender nada disso para torcer. É possível vibrar ou reclamar sem se ter a menor ideia da disposição tática, afinal, anterior às estratégias, a paixão é parte fundamental do futebol. E talvez por isso não seja tão estranho constatar que, apesar da modernização do futebol, ainda torcemos pelo salvador da pátria que fará o milagre do hexa frente aos nossos olhos relutantemente incrédulos.

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