Santo Antônio ainda não perdoou o 7×1

Quisera o primeiro jogo do Brasil tivesse acontecido no dia 13 de junho e talvez Santo Antônio tivesse mudado de opinião em relação ao relacionamento da nossa seleção com o povo. Desde aquela noite de 8 de julho de 2014, quando a canarinho deu 7 bofetadas na cara do país, o casamento foi para o vinagre.

O 3×0 sofrido para a Holanda no último jogo daquela Copa nem chegou a entrar na conta, foi como a noite em que o marido é posto para a rua pela mulher traída e vira a madrugada a beber, acorda em braços aleatórios e atira-se à sarjeta. Essa noite, mesmo em caso de reaproximação, nada vale, está na conta da ressaca indigesta do terrível episódio de separação, nenhuma parte do casal irá buscar na memória o que ocorreu nem tampouco acusarão um ao outro por isso.

A mágoa resiste naquela maldita partida no Mineirão.

Repare que o relacionamento entre a seleção e a torcida brasileira sempre foi um tanto conturbado. Ora enamorados pela conquista de títulos e exibições de gala, ora ressabiados por críticas injustas ou fracassos retumbantes. O amor mútuo nunca deixou de existir. Contudo, a decepção inimaginável rompeu os laços, quebrou a confiança, mudou tudo.

A primeira parte das Eliminatórias, a Copa América, os primeiros amistosos depois da separação, aquilo foi de uma crueldade rancorosa, o time brasileiro parecia fazer questão de afirmar sua traição, desfilando com a camisa amarela desalinhada, cheirando a perfume barato bem às vistas no povo, por pura maldade e incapacidade de admitir o quanto também ficou carente e sem rumo. Do outro lado, a nação fingia não ver e não se importar mais com o time, contudo, no fundo sofria e ansiava e desejava a reconciliação, a volta daquele amor eterno.

Com Tite, a seleção voltou a se arrumar, recuperou a confiança, venceu jogos, mas ainda não foi o suficiente para convencer a pátria desconfiada a reatar os laços da união. Ninguém perdoa assim tão barato. É preciso provar valor, mostrar que mudou, que é uma nova seleção, que não vai nunca mais fazer o que fez. E a ocasião para isso é a Copa do Mundo.

O primeiro jogo era a oportunidade, o adversário, respeitável, preciso. Suíço. Acontece que a partida aconteceu no 17 de junho, quatro dias depois da festa do santo casamenteiro. E parece que ninguém, nem povo nem time, pagou promessa alguma, deixaram a data passar batido. E visto a situação do casal separado, a relevância brutal do episódio do rompimento, deixar o santo de lado é uma ofensa arriscadíssima. Toda ajuda seria fundamental.

Pois foi que a seleção apresentou-se presunçosa em excesso. É verdade que fez um magistral gol com com a elegância quintessencial de Philippe Coutinho, vejam só o nome principesco do rapaz. Mas parou por aí.  Neymar, que nesta analogia matrimonial seria o olhar do traidor arrependido implorando perdão, não convenceu. Faltou-lhe a humildade voluntariosa, quase serviçal, necessária para reconquistar um coração ferido. Paulinho, de cabeça baixa não enxergava os espaços que poderiam levar ao caminho do reencontro. William, que teve seu papel naquela noite fatídica, precisava de muito, muito para se redimir. Nada fez. Marcelo esteve bem no primeiro tempo, mas sumiu na segunda etapa, quando os suíços dominaram o meio campo, empataram a partida e trouxeram à memória lembranças doloridas da história recente do casal. O reenlace foi ficando distante novamente.

Nem mesmo Gabriel Jesus, que traz em seu nome o apelo a alguém ainda mais poderoso que Santo Antônio, nem ele conseguiu fazer algo para reverter a situação. Tite tentou mudar o time, entraram Firmino, Fernandinho e Renato Augusto, que convenhamos, não tem predicados  ou experiência para curar feridas tão expostas. A bem verdade é que nesta tarde, sem o apoio do padroeiro dos casamentos, nada funcionaria. A seleção não se mostrou capaz de reascender a paixão do torcedor. Precisará de um futebol mais convincente, um tanto voluntarioso como inspirado. Temos vontade e talentos para isso, mas será necessário demonstrar amor, não pelo país, o que seria de uma pieguice nacionalista sem espaço hoje em dia, mas amor à camisa, essa amarela que representa o que de melhor já existiu na história do futebol. É essa adoração ao jogo bem jogado que deve motivar a seleção, é o segredo para recuperar seu affair com a torcida brasileira.

Uma reza também ajudará. Vamos sussurrar aos nossos santinhos que abençoem essa demanda, pois tanto a seleção quanto o povo, anseiam andar novamente de mãos dadas. Que Santo Antônio perdoe o 7×1 e abra caminho para que o time de Tite nos encante e reconquiste nossos corações. E também a Copa, é claro.

 

 

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