Desliguem as máquinas, por favor

A imagem é forte, triste, desoladora. Um ente querido, aquele mais alegre, mais cheio de vida, sofrera um terrível acidente, um cruel golpe para a família, amigos, colegas e admiradores.

Nos corredores do hospital, o clima era de perplexidade, assombro misturado com tristeza mórbida. Por que estava naquele local, naquele instante? Por que desviou o caminho justamente naquele dia? Havia um quê de raiva egocêntrica pairando nos mais próximos: como pôde fazer isso conosco? Quanta irresponsabilidade se envolver em uma situação tão arriscada, não sabia o quanto o amamos, o quanto nos faria sofrer?

O médico chega e não traz boas notícias. Falência múltipla, 7 órgãos comprometidos, apenas o coração ainda resiste. Isso mesmo 7×1.

Naquele 8 de julho de 2014, nossa seleção sofreu essa catástrofe incomensurável, saindo do incrédulo gramado do Mineirão diretamente para a UTI. Dias mais tarde, três paradas cardíacas, diante dos holandeses, pareciam decretar o fim. Quisera assim  fosse.

Acontece que, mesmo o corpo estando inerte, destroçado, acéfalo, ainda restava um fio de vida, aquela esperança parca a qual se agarram os que tem amor ao moribundo.

E não o deixaram partir em paz, conectaram máquinas, insuflaram ar artificialmente em seus pulmões.

Foi isso. A CBF continuou a mesma, roubando, fingindo fazer o que não fazia e nosso amado amigo definhava ainda mais em seu leito asséptico. O médico Dunga quase desligou os equipamentos de uma vez, mas a lembrança das histórias vividas nos fez chamar outro, que aceitou fazer o trabalho sujo, manter vivo quem já não devia.

Para a família, qualquer contração involuntária era sinal de recuperação. Olha, piscou pra mim, venceu um amistoso, mexeu o dedinho, goleou a Venezuela. Assim, quatro anos se passaram e fizeram acreditar que a recuperação era possível, mas não era.

Nesta Copa, amigos, o que vimos foram apenas as máquinas que vestiam o corpo do nosso ente querido, nem mesmo o coração havia mais. Por vezes, a recuperação da taxa de leucócitos nos fazia sorrir, a esperar pelo melhor. Mas era dessas flutuações inexplicáveis do organismo que ainda resiste por inércia.

Hoje, o diabo belga fez sua visita, escancarou às vistas públicas o estado terminal da nossa seleção. O que vimos nesta tarde não foi a tragédia, mas a continuação persistente dela. E prosseguimos a sofrer, a pressentir a morte que não vem, a insistir nesse apego em vão? Chega!

Deixem morrer! Desliguem as máquinas, por favor. E vamos chorar ao lado do corpo, velar o cadáver frio, sepultar nossas frustrações, retomar o curso natural das coisas.

Enterrem a geração de 2014, com Neymar, Marcelo, Willian, Fernandinho, Paulinho, Thiago Silva, que, apesar de grandes jogadores, nos lembram cruelmente nossa mazela maior. E vamos aproveitar para também mandar para a rua os doutores da CBF que nos venderam caro essa falsa esperança, quando não havia mais o que se fazer após aquele acidente fatal.

Nada será melhor a esta nação do que o luto doído, aquele tão profundo pesar que só nos dá um caminho possível, a superação. Porque quando um se vai, outro nasce.

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