Apito final.

Vida de cronista de Copa do Mundo não é fácil. Tem que assistir aos jogos, ver o noticiário, olhar o clima nas ruas, sempre procurando um detalhe para inspirar a próxima crônica.
Nem sempre a inspiração aparece. É como no jogo Egito x Uruguai, a gente cisca pra um lado, tenta encontrar uma brecha, arrisca um chute, no caso algumas linhas. Aí a defesa tira a bola de lá, “Não, não vai dar um bom texto…”.
Começo a tramar a jogada novamente, o Uruguai parece que vai dar uma inspiração. Suarez, dribla um, dois, vai fazer, mas não faz nada…nem para morder a bola o danado se prestou hoje.
Aí o sofrido escritor entra em desespero, porque do lado do Egito também nada digno de faraó, nem mesmo um “óóóó, passou perto!”. O Salah deve concordar, pois ficou assistindo à partida do banco, parecendo uma múmia…aliás será que ele chegou a enfaixar o ombro? Dizem que os egípcios são craques nisso.

O jogo seguinte, Marrocos x Irã, bem…para uma peleja disputada na hora do almoço, bem que serviu para embalar a siesta do cronista que lhes escreve. Um chute na canela aqui, uma espanada na bola acolá. Ai, ai, ai, Aiatolá! Atolou mesmo. As duas equipes com o freio de mão puxado, cansados como camelos já na metade do segundo tempo do primeiro jogo da Copa. Tanto faz, para eles nunca vai haver uma prorrogação na competição. Prorrogado mesmo foi o assunto do meu texto.

Enfim, Portugal x Espanha, a grande partida do dia. Agora vai rolar a inspiração!
Rola a bola e em 3 minutos, Ele, o melhor do mundo, cava o pênalti e faz o gol. Mas isso é normal, oras, é o Cristiano Ronaldo. A Espanha domina, toca a bola, envolve os lusos, tic, tac, tic, tac, bola pro Diego Costa, ginga pra lá, pra cá, caixa. Belo gol do espanhol de Sergipe, mas confesso que ainda me faltava o tema para costurar com palavras uma crônica original. Enquanto isso, a nau espanhola navegava em mar aberto, dominando o jogo mesmo sob o comando de um timoneiro recém contratado. E de repente, o vento muda de direção. Bola pra Ele, chute forte mas no meio do gol, no meio do goleiro, no meio das mãos do goleiro, no fundo da rede. Existe tapas de frango? Deve ter um gosto meio amargo, pelo menos para os espanhóis. Olha o assunto pra crônica surgindo, hein!
Entretanto, como já mencionei, vida de cronista de Copa do Mundo não é pastelzinho de Belém, não.
Vira o campo, vira o tempo e quem dança o vira são ibéricos. O agora Diego Cuesta faz um gol clássico de centro-avante, muy oportunista. Opa, el hombre nascido em Lagarto salva La Roja? Caramba, isso dá uma crônica melhor ainda.
Já começo a traçar as linhas, quando eis que aparece Nacho, que poderia ser um apetitoso jogador no México mas não dá guacamole: em uma patada atômica parece selar o destino dos patrícios. E deixa minha crônica novamente sem rumos.
E agora, qual vou escolher? Frango, Lagarto ou Nacho? O cardápio ficou tão extenso que não conseguia escolher.

Parecia que você, leitor, iria ficar a ver navios, espanhóis ou portugueses, tanto faz, mas não teria o prazer de saborear das minhas palavras pois fiquei entupido com tantos pratos apetitosos. O tempo estava se esgotando e a Copa do Mundo fazia comigo o mesmo que os castellanos, dava um olé.
Porém, os deuses da crônica pareciam entrosados com os deuses do futebol, Cristiano Ronaldo entre eles. Lance bobo na frente da área, Ele cava a falta novamente. Cobrança perfeita, o goleirol, nem na fotografia. O jogo é Dele, o dia é Dele. Será que a Copa vai ser dele?
Então, o leitor se pergunta: é disso que se trata a crônica? E eu lhe respondo, não!
Falar deste Ronaldo é assunto para os livros de história do futebol.
A narrativa aqui é outra: a partida no seu momento final e Portugal se safa. O cronista entra em estado de déja-vu, ou flash-back, como queira. Enxerga o segundo dia de Copa em um relance onírico, o Uruguai ganhando na bacia das almas, o Irã arrancando a vitória pela cabeça do adversário aos 49 do segundo tempo. Eureka! Aí está o tema da minha crônica de hoje. Salvo pelo gongo!

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