2×0 magro

O futebol tem dessas coisas: expressões e clichês que sintetizam um jogo. Quando nosso time goleia o adversário dizemos: “foi um passeio!”. Se a vitória foi indiscutível, não dando chances para o rival, “demos uma aula”.  Agora, se acontece do favorito perder, é porque “deu zebra”.

Quando falamos do placar, também temos explicações curtas. Um a zero é o placar mínimo, 3×0 é o clássico, 4 em diante é goleada. E o 2×0, como fica?

O dois a zero é ambíguo, ele necessita de um adjetivo pra poder descrever o que aconteceu durante o jogo.

Vamos pegar o exemplo do jogo da seleção brasileira contra a Sérvia. O que vimos foi um típico 2×0 magro. Isso mesmo, magro. O Brasil dominou a maior parte do tempo, é verdade, mas não foi uma apresentação de gala (olha aí outro clichê que diz tudo). Nosso time não encantou, não foi à frente com o brilho nos olhos do predador, tão pouco os sérvios se prestaram ao papel de presa fácil. Colocaram 9 ursos na defesa e não saíram de lá para quase nada.

A canarinho encontrou muitas dificuldades, a começar pela perda do nosso lateral esquerdo. Marcelo faz falta em qualquer equipe e nosso time se perdeu sem ele, se já era manco de um lado, ficou totalmente coxo nas duas laterais. Sua ausência certamente colaborou para a magreza do resultado.

Mas que fique claro: a condição corpórea do placar não reflete apenas os tentos convertidos, mas principalmente aqueles que foram desperdiçados. Se as oportunidades foram muitas, nossa fome de bola é saciada. Bolas na trave, defesas espetaculares, gols anulados e chances claras são aperitivos para os apreciadores do bom futebol. Aí, quando o juiz apita o final, estamos plenamente satisfeitos e dizemos que o 2×0 foi gordo.

Nada disso aconteceu nessa partida, as oportunidades foram raras, vazias. O primeiro gol foi um lampejo da genialidade de Coutinho, que encontrou o desaparecido Paulinho na cara do gol. A partida continuou morna e sem empolgar, a seleção superior mas contida, Neymar sob as rédeas da imensa cobrança que lhe é imposta, mal caiu, nem reclamou, jogou bem, mostrou que é peça chave, mas não decidiu, quer dizer, bateu o escanteio que resultou no segundo gol. Outro achado.

No final, o Brasil tocou a bola e fez bobinho com a Sérvia. Não é pouco nessa Copa do Mundo tão equilibrada. Mas serviu um prato raso para a torcida. 2×0 magro.

Agora vamos olhar para o outro destaque do dia. A improvável vitória da Coréia do Sul sobre a Alemanha. Qual foi o placar? 2×0.  Mas esse não teve nada de magro, e essa é a sutileza do futebol. Os asiáticos, muito inferiores tecnicamente, os germânicos, donos da taça, gigantes, milionários. E adivinhem, foi um jogo mais chato que aprender alemão em fita cassete. A partida foi de um nível técnico sofrível, dos dois lados. O placar justo seria a nulidade, mas o imponderável é a graça desse esporte.

Se a Alemanha desencantasse, certamente teríamos um placar magérrimo, fosse 1 ou 2 gols. Mas quem encontrou o caminho das redes foi a desastrosa seleção da Coréia, perdendo o fôlego, tropeçando na bola, chutando grama. Fizeram um. E depois, aproveitando o desespero do goleiro Neuer, que tentava fazer lá na frente o que seus colegas não conseguiram em 90 minutos, os coreanos marcaram o segundo, para assombro do planeta inteiro. Esse 2×0, que veio acompanhado de uma zebra magnânima, não teve nada de magro. Foi um 2×0 implacável, pesado, obeso. E vai demorar muito tempo para os alemães digerirem.

 

 

 

 

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