O Amor nos Tempos de Copa

Começou com uma brincadeira. O jogo estava difícil, os soviéticos fizeram um a zero. Ele olhou pra ela, ela olhou pra ele e fizeram a aposta: o primeiro beijo só sairia se o Brasil virasse o jogo. Graças ao Sócrates e ao Éder, os adolescentes saíram do zero a zero. E ficaram juntinhos até a tragédia do Sarriá. Paolo Rossi mandou o Brasil pra casa e brochou o casal, que prometeu se reencontrar só depois de quatro anos.

Veio 86. Ela ficou meio assim. Tinha descolado um namorado que não gostava de futebol. Ele conseguiu driblar a retranca. Seria só durante a Copa, sugeriu que ela pedisse um tempo. E assim foi. Apaixonados, sonharam com o tetra, na vitória magra contra a Espanha, na goleada inesperada contra a Polônia, mas calaram quando a França tirou o Brasil nos pênaltis. Pegaram bode e chegaram à conclusão que só podia ser um sinal: eles não tinham sido feitos um para o outro, mas em 90 voltariam a conversar.

Tempos sombrios. Lazaroni com um 3-5-2 retranqueiro. Collor no poder. O Brasil com um futebolzinho duro de engolir. Eles se evitaram na primeira fase, mas ele lançou o argumento infalível: – Demos sorte contra a Argentina em 82. Vamos ver o jogo na minha casa -. E assim foi e não é que a seleção trouxe esperança para o casal. No intervalo, a paixão reprimida há quatro anos veio forte, ao som de um tango argentino. Embriagados de amor, perderam o gol de Caniggia, mas nem ligaram muito. Pra manter a tradição, reencontro marcado daqui a quatro anos.

O Brasil caiu no Plano Real. O futebol brasileiro tinha abandonado a arte pelos resultados. Mas a fantasia aparecia a cada gol do Baixinho Romário. E quando Galvão berrou: “é tetra, é tetra”, eles já estavam aos beijos e com a promessa de que a partir de agora ficariam juntos para sempre.

Mas o pra sempre, sempre acaba. Ele deu uma de Baggio, bateu o pênalti bem longe do gol e os dois se separaram novamente. A única exceção seria a Copa de 98. Os dois estavam casados, mas deram uma escapadinha à francesa. Só conseguiram se ver na final. E que se dane o Zidane. Entre um gol e outro da França, eles já estavam pensando em 2002.

O ano do penta, da cambalhota do Vampeta e de malabarismos do casal. A esperança venceu o medo e, inspirados na família Felipão, eles decidiram finalmente encarar o até que a morte os separe. Fizeram gols em todos os jogos, encomendaram o primeiro herdeiro e surpresa: eram gêmeos: Rivaldo e Ronaldo.

Os encontros fortuitos tinham ficado pra trás, mas nas Copas da Alemanha e da África mantiveram a tradição de ver a Seleção sempre juntos. No Brasil, foram ao estádio em todos os jogos do time de Felipão.O amor deles, quem diria, chegou ao Itaquerão, de trem expresso, sem escalas, sem segredos. Botaram fé no hexa, só que a goleada de 7 x 1 no Mineirão aumentou a crise entre o casal. Eles achavam que o futebol resolveria os problemas extra-campo, mas não rolou e eles decidiram se separar.

A coisa parecia que ficaria ruça para sempre, mas em 2018 ele propôs uma última chance. Pela primeira vez, eles veriam uma Copa fora do país. Entre uma vodka e outra, se divertiram com os tombos de Neymar, vibraram com as vitórias sobre Costa Rica, Sérvia, México e entraram em contagem regressiva pelo hexa. O amor, que parecia esquecido, passou por uma revolução. Amadurecidos, seguem agora o lema do poetinha Vinícius de Moraes: “Que (o amor) não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.”

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