Para fazer de 2018 um novo 2016

Dona Emília andava pela casa apressada, arrumando todos os últimos detalhes. Faltavam poucos minutos para a partida começar e tudo tinha que estar exatamente no mesmo lugar de dois anos atrás. Já não lembrava se era aquele mesmo pano de prato que estava pendurado, mas acreditava que sim. Apesar dos 82 anos, ainda conservava a memória quase intacta. Ainda mais daquele dia! E precisava fazer tudo certinho para que ele se repetisse.
Certificou-se de que o chouriço estava quase pronto no forno, o binho* já estava no frigorífico, as canecas já haviam sido lavadas e o pão, cortado. Pegou a pequena bandeja, colocou sobre ela a cesta com os pães, a garrafa de azeite, as duas canecas, e levou-as com cuidado para a sala. O marido, Seu Fernando, já estava sentado em sua poltrona de couro. Os filhos haviam dado um belo e confortável sofá de presente no último Natal, mas ele era deveras supersticioso para não sentar em sua poltrona. Precisava fazer tudo certinho para que aquele dia de dois anos atrás se repetisse! O rádio de pilha, que lhe acompanhava há uns bons anos, já estava ligado na mesa de canto ao seu lado. Bem baixinho, porque Dona Emília dizia que a incomodava. Preferia ouvir a partida pela televisão.
Acertaram os últimos preparativos. Dona Emília reposicionando a imagem de Nossa Senhora de Fátima, que estava fora do lugar, junto com a fotografia que havia sido colocada cuidadosamente atrás da santa. Deu um beijinho na testa do gajo que estampava a foto, fez uma rápida prece, e sentou-se no sofá ao lado do marido para assistir a partida.
O que começou tranquilo para os lusos, foi ficando tenso, muito tenso! Dona Emília já tinha quase certeza de que havia errado com o pano de prato! Seu Fernando quase não conseguia ficar sentado! E já estava convencido de pedir aos filhos para devolver aquele sofá e trazer o antigo de volta! Pelo menos até o fim do Mundial! Não podiam arriscar! Não depois do que aconteceu há dois anos!
Mas nenhum dos dois perdeu a esperança. Nem eles, nem as centenas de portugueses que estavam ali na praça a pouco mais de 100 metros acompanhando a partida pelo ecrã* gigante. E quando o árbitro assinalou o tiro direto, faltando menos de cinco minutos para o fim do jogo, Dona Emília se dirigiu à imagem de Nossa Senhora de Fátima, beijou os pés da Santa, pegou a fotografia e voltou para o sofá. Segurando a imagem de Cristiano com as duas mãos, a senhora não desgrudava os olhos da tela, observando o ritual do gajo antes da cobrança. Sussurrava algumas rezas, junto com o nome do português, e já não se aguentava de nervoso! Até que Cristiano começou a caminhar para a bola. Cobrou a falta. O goleiro, nem se mexeu. E a redonda beijou carinhosamente a rede. O estádio explodiu. A praça explodiu. Só se ouviam os gritos, as saudações, os cantos de alegria. Seu Fernando derrubou mesinha, radinho… quase tudo que havia por perto. Dona Emília quase rasgou a fotografia, tamanha a emoção! Mas ainda bem que se conteve. Precisava dela intacta para o restante do Mundial! Precisava manter o ritual da Eurocopa de 2016. Quem sabe, não dava certo novamente.

*binho – em alguns lugares de Portugal, principalmente no Norte, é comum trocarem o “v” pelo “b”, daí o “vinho” soar como “binho”.
*ecrã – como os portugueses chamam a tela (de TV, do celular).

(foto: Mario Cruz, Agência LUSA, para Diário de Notícias)

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