Sou brasileiro na Copa

Dia seguinte ao acidente brasileiro na Copa diante dos diabos vermelhos, me pego quebrando a promessa de véspera. Estou, de novo, em frente à TV para ver jogo de futebol de Copa. O cadáver nem esfriou… É futebol.

Tem brasileiro em campo. Vamos lá! Vermelhos em campo! Outros? Campeões do mundo? Nada! Mas a moda agora é saber sofrer e constatar que não há mais bobo na bola. Retórica. No Mundial da Rússia, já ficaram pelo caminho os medalhões. Restam nossa carrasca França e os inventores do futebol. É futebol! Tenho que engolir o choro, lembrar que futiba é bola na rede e seguir admirando a arte que me foi apresentada, ainda na infância, nos domingos de Maraca dos anos de Zico, Dinamite e companhia!

Tocam-se os hinos. Estou na cozinha a beber água e a lavar o rosto. É futebol! É Copa do Mundo! Quais serão as estratégias do anfitrião e de visitante? Nem me fale em estratégia. O nó que nos deram ontem ainda me incomoda a garganta.

Enfim. Há brasileiros na sala, muito menos em bares e praças e outros poucos, a trabalho nas redações. Eita. Há brasileiros em campo. Um velho conhecido dos campos do Cerrado vai comandar a peleja que decide a última vaga das quartas de final da Copa 2018. Quem vai levar? Os russos continuam campanha surpresa ou os croatas conquistam lugar na semifinal depois de 20 anos? Apita Sandro Meira Ricci. Comeeeeça! Russos saem na frente. Cabeçada certeira do atacante croata. Empate. Bolas na trave, goleiros pegando tudo. Final do segundo tempo. Não teve jeito. Mais uma prorrogação em campos russos. A Rússia quer o empate? Quem se aguenta em campo? Está tudo desenhado… Vamos para os tiros da marca da cal e a sorte vai decidir tudo. Mas quem disse que penalty é sorte, me irrita o sobrinho metido a entendido. Não largou nem as fraldas, penso eu, dono da verdade. Discutir agora é perder tempo. Olhos vidrados!

A prorrogação vou ver com atenção na TV do quarto, sozinho. Nem sei para quem estou torcendo. Escolho um herói. É ele, esse latera que jogou no Grêmio. Ele é brasileiro! Bora Mario Fernandes!

No início da prorrogação, Vida ressuscita esperanças croatas que parecem definir a batalha… Está tudo acabado? Que nada! Tem brasileiro em campo, tem torcida brasileira dentro e fora do estádio.

Bola parada. Bate, Mario! Peço eu. Ele abandona a cobrança e vai para a área… Chuveirinho na área. É dele! É dele! Mario Fernandes para o Brasil! Opa. Ato falho! Mario Fernandes faz a anfitriã Rússia respirar no segundo tempo da prorrogação com a testada certeira. Choro de alegria! É empate russo. É a renovação da esperança brasileira, digo, russa. Mais um pouco de tempo… Parafraseando o narrador… Não há tempo para mais nada. Ih! Deu ruim. É bola na marca da cal para os croatas. Vem aí o craque da Croácia, do Real. Encaixa o goleiro russo. Sorte de vencedor? O 10 croata me lembra o Galo em 86…

Agora é mais bola na marca da cal. Sou Rússia. Sou Mario Fernandes. Vai começar a disputa. Cavadinha, Smolov? Peraí! Já começou? É isso mesmo? Não é o experimente, aquele da bola de gude de infância? O russo brincou na frente da torcida? Assumiu o risco o atacante… cavadinha irresponsável do Smolov. Nem o narrador acredita na tal infelicidade. Goleiro croata teve tempo de sentar pra defender a bola atrasada. Mais um tempo e é a vez de o arqueiro russo pegar  lá no cantinho… Vai dar Rússia! Vamos ter brasileiro herói na Copa do Mundo na Rússia! Outro pouco de tempo… e olhos brasileiros acompanham a caminhada angustiante do ex-gremista. É ele. É tricolor. É sangue azul, vermelho e branco. Mario Ferrnandes caminha para se consagrar e mostrar pros russos o que futebol brasileiro é, na raiz. Herói ou vilão? Brigo eu com meus pensamentos. Enchemos o peito de ar, paramos de respirar para soltar o grito calado pelos belgas na véspera com a seleção brasileira. Vamos partir para a bola com o pé direito do lateral brasileiro… Ele corre, vamos juntos com ele. Ele mira o canto direito. O goleiro salta antes para a frente escolhe o lado errado. Mario vai se consagrar, faz a bola girar, viajar da marca da cal, e estou pronto para pular do sofá e vibrar. Caprichosamente, a redonda rola, rola e tira tinta da trave… mas pelo lado de fora do gol croata. Agonia e silêncio na casa dos Fernandes, dos Silvas, dos Oliveiras, dos brasileiros de todos os nomes. A Croácia está na frente na disputa de penalidades máximas. O brasileiro faz o caminho de volta ao meio de campo junto com a nossa esperança, os moradores do País do Futebol, do futebol brasileiro que não vingou na Copa.

Segue a disputa. Do meio de campo, o defensor brasileiro vê ainda a batida do capitão croata passear pelas mãos do arqueiro russo beijar a trave e chorar para dentro do gol. Que batida!

Mais uma rodada e tentos marcados para as duas equipes… e a corrida dos soldados croatas para abraçar o goleiro para a vibração da classificação. A esperança do Brasil em ter um representante nas finais se apaga. Deu Croácia. Os olhos lacrimejados do lateral brasileiro emocionam mais uma vez os brasileiros em menos de 24h.

É futebol. Não posso abandonar a Copa. Sou brasileiro. Agora deu, né? – reclama a mulher que odeia esporte. Vamos ver um filminho? Quase concordando com a mulher, mas louco de vontade de ver quem vai conquistar esse Mundial, pensa rápido. Sandro foi muito bem hoje! Opa! É ele, o novo Arnaldo. É isso! É isso! Sandro carimbou o passaporte para as semifinais ou até para uma grande final: o árbitro brasileiro que vi atuar vezes e vezes no Distrito Federal: Sandro Meira Ricci. Vou continuar na torcida. A Copa ainda não acabou pra gente! Bora!

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