Gritos que poderiam ser de Munch.

Dia lindo e comprido. Lá estava ela em São Petesburgo para torcer pela seleção brasileira. Pela seleção da Costa Rica. Da Argentina. Pela seleção de botões da Rose. De botões do irmão. De botões da camisa social do chefe coxinha. O negócio era torcer. Sentia que precisa gritar. Berrar por aí: Vai Brasil, Vai Brasil, Vai Neymar, Vai Orlando, vê se me beija, Vai computador, vê se liga, Vai internet, vê se pega, Vai plano de saúde, vê se não aumenta.
Vestida de verde e amarelo, bandeira, chapéu e apito, tudo como manda o figurino em época de Copa do Mundo. O estádio lotado de gente. O juiz autoriza, a partida começa.
A seleção querendo fazer a melhor partida, a torcida sambando, apitando.
No meio da arquibancada junto com todos os brasileiros e estrangeiros, o grito dela se mistura. Com tanta língua sendo falada naquela arquibancada ninguém percebe o que esta torcedora grita, e ela percebe que ninguém percebe, e então grita mais alto, mais forte, descola um megafone e começa a dar mais força para seleção canarinho:
-Vai Brasil, Vai, Vai Felipe Coutinho, Vai Neymar, Vai Gilberto, Vai me dar o mesmo aumento que você deu pra ele seu cretino, só porque eu sou mulher tenho que ganhar menos, Gilberto?

Nisso, um outro torcedor brasileiro que estava na fileira de trás, cutuca ela pelos ombros e diz:
-Isso é alguma terapia para aliviar os males do fígado?

Ela responde pelo megafone pra ele:
-Vai Brasil, Vai Lava Jato, Vão pro inferno seus políticos corruptos.

O torcedor de repente arregala o olho e uma lâmpada se acende sobre sua cabeça. Em seguida começa a berrar também:

-Vai Neymar, Vai eleição, Vai Jesus, ajuda Jesus, manda a bola para uma pessoa íntegra pra ser o próximo representante deste país por Deus Jesus, e a frase saía assim comprida, sem vírgula, e quanto mais o sujeito berrava mais ele aliviava a tensão, tinha marcado uma massagem para depois do jogo à toa, não iria precisar, isso era melhor que 20 anos de terapia, nunca havia se sentido tão bem e toca de berrar: Vai Margareth, Vai se enrolar com o Azevedo, vai se danar com ele sua traíra.

De repente, na arquibancada, um pouquinho antes do gol do Felipe Coutinho só se ouvia a torcida brasileira incentivando a seleção canarinho de forma cada vez mais peculiar:

-Vai Jorge, seu filho da mãe, lembra de mim e me contrata logo, que porra.

– Vai Sofia, libera este pagamento aí Sofia.

– Vai Felipe Coutinho, Vai, Vão tomar no rabo seus executivos de bosta que eu não vou pagar esta conta não, vão roubar no seu próprio país, ladrões.

-Vai educação, Vai saúde, Vai Brasil, Vai Polícia Federal, Vai seu político safado, vai pra prisão.

E de repente Felipe Coutinho faz um Gol, todos gritam mais, alguns rasgam as camisas, outros dão cambalhotas na arquibancada e no campo, mas todos berram a mesma coisa Goooooooooooooooooooooooooooooooool

É Brasil em São Peterburgo, cidade onde tudo começa no maravilhoso conto O Nariz de Gogol. Isso é puro surrealismo, não nos gritos e nem tanto no conto de Gogol, mas na vida pacata e tranquila que se leva neste país que tanto torcemos para que conquiste o respeito de todo este mundo de brasileiros.

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