A Copa da Rússia

Era para ser uma pelada num campinho de gelo qualquer. Mas o negócio tinha se estendido, e eles começaram a ficar alvoroçados.

Como assim? Copa do Mundo aqui na Rússia?  Hoje? Dia 14? Por que não fomos convocados antes?

 

Gogol

Tolstoi

Pushkin

Gorki

Dostoievski

Tchekhov

Andreiev

Goncharov

Soljenítsin

Maiakovski

Babel

Turguêniev

 

Todos convocados para a grande Copa do Mundo na Rússia. Em campo os melhores escritores da Rússia. A bola? A cabeça de algum mortal que estivesse embevecido com a literatura russa no momento.

Procuraram lá na internet dos imortais e acharam quem tinha a cabeça mais fácil de se desvencilhar do corpo. A pessoa tinha minhocas na cabeça aos invés de miolos. Nada demais. A bola rolava mais fácil.

 

O campo?

Aquele ali perto de Moscou. Invisível para os olhos dos mortais.

 

Conversa daqui, costura dali, e tudo pronto. Estavam preparados para entrar em campo com a bola inusitada para quem não conhecia o mundo dos imortais. Sempre pegavam uma cabeça para rolar pelos campos nas peladas. Preferiam usurpar  a bola quando a pessoa estava dormindo. Pegavam a cabeça que estava sonhando por aí e jogavam  a partida por duas horas e só depois devolviam para o corpo do dito cujo ou cuja.

A cabeça sempre achava que tudo era sonho. Via as mãos de Gogol escrevendo O Capote, via Tchekhov rascunhando a Dama e o Cachorrinho e depois, rolava para a trave do gol e só ouvia os gritos da torcida: por que parou, parou por que?

 

E o juiz, quem vai ser o juiz? Ora bolas, sem trocadilho, disse Gogol, convide Virginia Woolf.

Virginia? Uma mulher? Tolstoi estranha.

Qual o problema? Temos que nos atualizar, as mulheres estão ganhando o mundo, até mesmo as imortais. Virginia para juiz,  quem está comigo?

Concordo

Concordo

12 vezes.

 

Agora separar as camisas.

 

Gogol: eu quero ficar com a 10.

Desculpe quem joga com a 10 sou eu, diz Tolstoi.

Meu bem, Guerra e Paz, lembra? Sou eu.

Vamos tirar no palitinho diz Gorki.

Ninguém retrucou.

Pushkin ganhou.

Todos se olharam como se aquilo fosse injustiça, mas ninguém reclamou. O próprio Pushkin, disse, Dama de Espadas é soberbo, quem não reconhece isso? Sou o Pelé dos escritores russos, e disse já vestindo a camisa toda manchada de caneta tinteiro.

Estamos prontos.

 

Acederam-se as luzes do estádio. Na arquibancada escritores e leitores do mesmo lado, todos torcendo por uma excelente partida. Só.

O time adversário: escritores ingleses, os melhores: Shakespeare, Dickens e imagine você os doze melhores escritores ingleses e seus reservas e eles já estão lá no campo. Eu estou aqui para homenagear os russos, por enquanto.

 

Ei Virginia,  a juíza sorriu. Não adianta querer puxar a sardinha, Virginia. Saberemos de tudo.

Ela tacou uma pedra (que ainda levava no bolso )em Gogol, que disse aquilo.

 

Cadê a bola Tolstoi gritou?

 

Aqui está,  disse o gandula, aprendiz de escritor. E trouxe uma cabeça de uma mulher com cabelos encaracolados.

 

Ora ora- Gorki comentou- as minhocas não são apenas sentido figurado.

 

Com a cabeça da mulher, grande admiradora deles,  a bola rolou solta.

Estava aberta a Copa dos Grandes Escritores do Mundo. A cabeça da mulher ia e vinha numa cadência só. Para a perplexidade geral, os russos marcaram 7 gols contra os ingleses.

Nisso levanta da arquibancada Clarice Lispector e diz:

Eu já vi isso antes, em algum lugar,  eu não estava lá mas eu estava lá e vi e não vi ao mesmo tempo.

Gogol disse para Tolstoi: sempre linda a Clarice.

Só avisa ela que é proibido fumar aqui no estádio, por favor. Mais uma coisa: que queria ter escrito Felicidade Clandestina.

E foram todos comemorar com uma vodka  transparente, tão transparente que chegava a ser invisível,  a abertura e triunfo da Rússia na Copa.

 

 

Compartilhar:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email

Curta nossa página no Facebook e acompanhe as crônicas mais recentes.

Crônicas Recentes.