Festa estranha, com gente esquisita

Quando me acomodei no sofá pra ver o Brasil entrar em campo pela primeira vez nesta Copa, passei os primeiros 15 minutos tentando reconhecer aquele pessoal de amarelo. Torcedora mequetrefe, só vejo futebol em Mundial. Um parênteses de saída: sou corinthiana quase por acidente. Veja bem, aos dez anos notei que precisava escolher um time pra responder a terceira grande pergunta da humanidade – pra quem você torce? (as duas primeiras eram qual o seu nome e quantos anos você tem). Fiz uma rápida enquete na família: pai palmeirense + mãe corinthiana + irmã mais velha palmeirense = tava na cara que o meu papel era equilibrar esse jogo! É nóis, mano. Mas, na real, não sei nem a escalação do meu timão.

Voltando ao “Vai, Brasil!’, sou dessas que não acompanhou a caravana nem o ensaio da escola de samba. A vida andava enrolada com greve nacional, reuniões de trabalho, reforma no andar de cima, doença na família, boletos vencendo e eu fiquei sem espaço no hd. No primeiro dia de jogo eu ainda podia lançar mão da desculpa fatídica mais recorrente do nosso país: “eu não sabia de nada”.

Ok, eu iria aprender na raça, não é isso que brasileiro faz? Então era a bola rolando no campo e eu perguntando: além do Tite e do Neymar (porque reconheci a calopsita), quem mais tá lá? E apelei logo pra nostalgia: tem alguém do meu tempo? Foi quando disseram que tinha uns dois do 7X1. Precisei deixar claro que o “meu tempo” não tem nada a ver com essa coisa de “seteaum”. Isso daí a gente bota na conta dos traumas, aqueles lances que a gente enterra nos rincões ocultos da nossa mente pra não ficar arrastando corrente.

Neymar, Tiago Silva, Marcelo e, mano, de onde saiu o resto dessa galera? Até o final da Copa eu vou saber. Mas não hoje, hoje é “Vai, Brasil!”. E, pô, como a gente quer se orgulhar da pátria de chuteiras, gritar gol, eleger um herói nacional, afinal de contas somos foda, unidos, criativos e especiais. A gente quer muito e isso é maior do que o PIB, o dólar, a taxa de juros e o relatório pra entregar.

Então puxei do fundo do baú minha melhor versão torcedora, já meio empoeirada depois de quatro anos, e tratei logo de apelidar a turma: chuta aí, cabeludo! Corre, sapinho! Ó o branquelo safado! E a fala mais proferida por metro quadrado em 90 e tantos minutos: a estrelinha caiu de novo! Por aí foi. Quer dizer… “ir”, mesmo, não foi. Né? Parece até que eles treinaram por skype, um em cada canto do mundo – entrosamento, cadê? Ficou um treco na barriga e não por culpa da pipoca.

No segundo jogo me senti mais preparada. Já livre das teias de aranha, eu identificava um pouco melhor a galera, vinha acompanhando os placares gerais e algumas notícias. Sem falar que nessa altura o assunto copa do mundo já tinha tomado conta dos papos no café, das festinhas de amigos e até o frentista já puxava logo um: você viu a Argentina tomar três? Frentista é pura cultura pra quem passa a tarde toda em reunião numa sala com ar condicionado. Sorrisão, hein? Bota etanol, por favor.

Brasil X Costa Rica só fez reforçar minhas primeiras impressões. Temos um time de louboutin, meia calça fio 15 e muito medo de inflamar a tatuagem. E antes que falem que o comentário é isso ou aquilo, aviso que não tem a ver com gênero, mas com postura dentro de campo. Bota a Marta, o Laerte ou o moleque da várzea lá no meio que eles arrancam essa meia calça. E, cá entre nós, já que surgiu o assunto figurino, parece que mudaram a costureira dos uniformes. Tão mais justinhos, né?

O sufoco de Brasil X Costa Rica me fez avaliar corte de cabelo, costura e tatuagem e bater cabeça. Fico me perguntando se é a inexorável passagem do tempo que faz a gente sentir saudade de sentir uma coisa que a gente sentia e não sente mais. Será puro saudosismo de uma época em que eu assistia jogo com meu pai e via a seleção canarinho jogar com gosto e com raça, preocupada em fazer gol e não marketing? Será que fui eu que mudei, será a ausência da figura do pai, serão os cifrões do futebol, a imprensa golpista, o cabelo do Neymar ou o full HD que mostra o que eu não quero ver?

Mudamos todos. E muito.

Por aqui, sigo tentando reconhecer aquele pessoal de amarelo (ou azul). Ainda que agora eu saiba seus nomes.

Vai, Brasil!

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