HOJE NÃO ESTOU ME SENTINDO MUITO BEM.

Dormi mal, acordei péssimo. Tive insônia de encharcar lençóis alternada por pesadelos de querer gritar e não conseguir. Neymar com aquela instalação capilar que expôs no jogo contra a Suíça me aparecia recorrente socando a bola como no jogo da Costa Rica, xingando mi madre, rolando no chão do quarto, voando até o teto. Num determinado momento me aparecia Bruna Marquezine que ora se mostrava como vilã medieval, ora como Elza Soares, aquele pitélzinho de caboclice com carinha brejeira e o corpo malemolente que enfeitiçou Garrincha em Campos do Jordão, cidade onde a seleção de 62 se preparou antes de ir para o Chile. Esse triângulo amoroso roubou meu sono que deveria ser tranquilo pela última apresentação da Seleção contra a Sérvia, quando Neymar foi maduro e efetivo, apanhou calado, jogou pro time, bateu corner de apostila de física, mandou beijinho pro filho. Não, nada de tranquilidade. Elza, que era Bruna, pedia para Neymar, que não era Garrincha, largar tudo e fugir para viver um grande amor. Ora, vejam. Quem me surge agora é Vinicius de Moraes com um copo de uísque na mão dizendo que não seja imortal posto que a chama, mas infinito enquanto dure. Mas, o quê? O amor de Bruna e Neymar? O amor de Elza e Mané? O rolamento do nosso 10 sobre o gramado do jogo contra a Sérvia? Sonho doido, o inconsciente é péssimo roteirista. Na certa o poetinha se referia ao infinito desassossego desta noite de suores e tormentos sem fim, quando Elza Marquezine abraça Mané Neymar e cochicha: “deixa que digam, que pensem, que falem, deixa isso pra lá, o que que tem?” No nosso tempo – concluía a brejeira em voz rouca, amálgama de samba de raiz e jazz de Nova Orleans – , havia bocas de Matildes a torturar os ouvidos do anjo de pernas tortas com impropérios desqualificantes tais como aleijado, psicologicamente incapaz de vestir a camisa amarela, irresponsável, adúltero, traidor da mãe de suas sete filhas, alcoólatra desde criancinha.
Não! Gritava Bruna, que agora era Bruna mesmo, lembrando que Garrincha e Neymar são incomparáveis no futebol e na vida vivida e que as Matildes de ontem se proliferaram no surto opiniático que assola a face mais sombria das redes sociais. Alguém falou em surto? É comigo mesmo. Acabo de acordar, levantar da cama de supetão e abrir aflito a gaveta atrás de ansiolíticos mesmo vencidos, vidrinhos vazios de Rivotril para sugar as últimas gotículas, até que se restaure minha sanidade. Gentedocéu, como vou enfrentar esse dia que mal nasceu e já me produz delirium tremens, palpitações, prenúncios de depressão, gastrite, cefaleia, lumbago e urticária. Um tanto refeito do pesadelo maluco e ofegante, lembro que hoje não tem Copa e tudo piora.
Tento ligar para meu psiquiatra que teima em não me atender quando o sol nem ainda raiou, mas de tanto insistir ouço alguém do outro lado da linha. É a voz do Tite em tom de anúncio de banco pontificando “foco, atitude, família, desempenho, retomar, arregaçar, arreganhar, vencer, caipirinha que eu mereço.” Ôpa! Álcool não! É nitroglicerina em dias psicoestranhos,
como promete ser esta manhã que já raia pelas frestas da janela. Socorro! Não sei como viver essa sexta sem jogo. Não haverá cinema, livro, brincadeira com filhas e netos, passeio com cachorro, namoro, escapismo às avessas com indignações produzidas por notícias de Brasília e pela iniquidade nacional e planetária, não, nada é capaz de amenizar tamanha crise de abstinência. Depois de duas semanas de jogos bons, mais ou menos, emocionantes, chatos e inesquecíveis, um vazio se apossa de mim e seu efeito colateral me ameaça com lembranças de sonhos perversos, perebas e febre alta. Que este dia seja breve. Que esta sexta me seja leve. Que venha o sábado. Com Portugal, Argentina, Uruguai, França, Messi, Cavani, Griezmann, Cristiano Ronaldo. Pronto. Só de pensar me sinto um pouquinho melhor, obrigado. E calma, Neymar. Manda um beijinho pra Bruna, pro seu filho e fique bem. Segunda feira tem México.

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