GOSTO DO FUTEBOL DAS MENINAS, TALKEY?

Talkey, sou um alienado. Reservei este domingo para me abstrair de pesos reais, vizinhos potencialmente armados, cortes travestidos de contingenciamentos, sing in the rains, conjes, astrólogos terraplanistas, snipers eleitos, loas a torturadores, filhos que se acham, pai que não acha nada demais, queiorozes ocultos,
ódios a opositores, beicinhos contra a mídia, horizontes turvos, novas previdências nubladas, damares em geral. Talkey, sou um infeliz sem partido, que não enxerga a obsessão pela inocência de um populista como bandeira de oposição ao outro populista.
Sou um mal visto por todos os olhos das extremidades. Arrisco sentir que um elegeu o outro, e que o outro caminha para eleger o um, como uma sina radical amaldiçoada ao Brasil, onde o equilíbrio, a sensatez e o bom senso inimigos fossem do destino nacional. Chega. Hoje me dei ao luxo de sentir um Brasil que não existe. Ou existe, quando se relativa as agruras do entorno e se encontram frestas de alegria. Talkey, sou um idiota útil. Acordei cedo para assistir ao futebol das meninas, como menino fosse deslumbrado quando desfila no gramado qualquer camisa canarinho. Talkey, sou um relativista. Não me apego à memória de ter visto Pelé, Zico e Rivaldo dentro de uma camisa dez amarelinha. Nem mesmo Martha, a dez que vale dez em qualquer seleção brasileira. O fato de nenhum deles estar em campo, diante do meu olhar puro, não me roubou o privilégio de amar o futebol, sentimento que já me assaltou sábado, culpa de um eletrizante Coreia do Sul e Senegal, cujo show de gols se estendeu à manhã
de domingo com as meninas do Vadão. Sem Martha e contra um débil adversário, mas e daí? Quantas vezes não fraquejamos frente aos mais fracos? Eis o mistério do futebol, quando Davis vencem Golias e ficamos com gosto de sandálias bíblicas na boca? Talkey, o punch do futebol feminino é outro, tanto quanto o do vôlei feminino e do basquete feminino frente aos viris varões de sovaco cabeludo. Mas racionalismos não me couberam hoje. Me permiti vibrar com as meninas, tanto quanto com a exibição da primeira seleção da era Tite sem a sombra de Neymar. Quem venha a Copa do Mundo Feminina e a Copa América, tudo junto e shallow now, provocando minhas emoções inocentes porém sinceras, que datam desde uma noite em 1958, quando testemunhei os campeões do mundo em cima de um carro de bombeiros jorrando esplendor pelas ruas do Rio. Que venham mais esplendores. Os entornos adversos não são capazes de me roubar a paixão pelo futebol. Ela me é única é inviolável. Não importa quem somos ou de que jeito estamos. Me cochicha João Saldanha para encerrar
a prosa: “a Itália foi campeã mundial em pleno regime fascista. E Mussolini acabou pendurado de cabeça pra baixo num posto de gasolina em Milão.”

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