GENTE ESQUISITA.

Wilma e Raulino odiavam futebol e Copa do Mundo.
Tinham orgulho de dizer que não distinguiam uma bola de futebol de um melão.
Já haviam fugido de várias Copas, o que chamavam de
burburinho insano, balbúrdia incivilizada, foguetório
agressivo, uma alegria artificial e manipulada, um detestável carnaval fora de época dos detestáveis carnavais de fevereiro.
Dessa vez, os motivos lhes esfregavam os narizes. Diziam que o Brasil estava em franco subdesenvolvimento, mergulhado numa lama moral, política, ética e financeira sem precedentes, e atribuíam à patetice generalizada a responsabilidade da civilização que se degradava em passos rápidos e cavalares.
Futebol era o pior dos culpados. Chamavam de ópio do povo, subpaixão escapista, manobra dos poderosos para esconder as mazelas brasileiras para debaixo do tapete.
Ao menor sinal auditivo de que a Copa estava se aproximando, começaram a planejar uma fuga turística, aproveitando comemorar 15 anos de casados, sem filhos nem cachorro.
Não conheciam a Europa, mas não queriam viagens cansativas e obrigações de turistas comuns. Alpes austríacos foi o sossego escolhido.
E aterrissaram em Milão, na calada de uma madrugada amena. Enfurnaram-se num hotel 3 estrelas, ajustaram o jet leg e, dia seguinte, alugaram um carro e foram subindo por estradinhas rumo à Áustria. De cidadezinha em cidadezinha, caminhos cada vez mais íngremes, pousadas charmosinhas iguais, belas paisagens porém monótonas. Já estavam achando aquilo tudo chato e sossegado demais.
Lá se iam 12 dias. Não havia mais comida típica a se degustar, picos nevados a contemplar, assunto a conversar. Sexo nem pensar. Estava tudo muito no extremo oposto da bagunça tropical, que, querendo ou não, andavam sentido falta. Um tantinho de alegria moderada cairia bem.
Foram parar em Salzburg, onde dormiram numa abadia transformada em hotel, acordaram cedo e saíram cantando The Hills are Alive por todos os recantos da gracinha de cidade. Animaram-se tanto que resolveram variar pra valer.
Largaram o carro na locadora e no maior espírito easy ryder ferroviário, pegaram o primeiro trem que saía da estação. Destino? Nem quiseram saber.
Alojaram-se na cabine, encheram a cara de vinho branco da Alsácia, fartaram-se de salsichas e salada de batatas morna, enfim, conversaram, riram, talvez se amaram, e dormiram como rochas alpinas.
No balanço gostoso do trem, nem perceberam as paradas nas estações. Até que foram acordados de supetão.
– Reisepass, bitte!
– Hein?
– Passaporte, Wilma, pega na bolsa!
O policial carrancudo olhou, examinou, olhou de novo e carimbou. E ainda foi protocolar.
– Willkommen in München!
– Ele disse München!?
– Munique, Raulino, Munique!
– Ah, relaxa. Sei que é uma cidade alegre, civilizada, sem a baixaria brasileira.
Da estação ao hotel foram de taxi, ao entardecer tardio do verão europeu. Ao contrário do esperado, acharam a cidade meio vazia, macambúzia. Foram recebidos no lobby por um recepcionista formal, que entregou a chave
a Raulino, sem olhar os rostos nem dizer bem vindos.
Depois de uma chuveirada com direito a amor na vertical, vestiram-se e saíram pelas ruas atrás da primeira cervejaria típica que encontrassem.
Entraram numa imensa, pés direitos altos, mesões de madeira tosca, lustres gigantescos de ferro batido. Mas estranharam quatro detalhes.
Um: o salão estava completamente vazio, nenhum gordalhão vestido de tirolês se embebedando e gritando “Uhs!”. Dois: a garçonete de avental colorido era muito mal encarada. Três: chopp quente, tirado sem capricho e sem colarinho. Quatro: entenderam que a cozinha tinha encerrado mais cedo.
Voltaram para o hotel calados pelas ruas desertas e fantasmagóricas.
Wilma ainda resmungou.
– Cidade esquisita, gente esquisita.
Passava das 23 horas de 27 de junho de 2018.
Um dia histórico e muito esquisito para os alemães.

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