NÃO MATEM O VELHO.

Enquanto meus amigos de escola disputavam Bellini, figurinha carimbada dificílima, eu tinha Zagallo e não trocava por ninguém. Sempre tive simpatia por ele.
Como jogador inventou o ponta esquerda recuado e abriu espaços para Nilton Santos ser um dos maiores laterais esquerdos do mundo e liberar Didi, eleito Mr. Football, o melhor jogador da Copa da Suécia.
Numa festa junina da escola em 62, Zagallo protagonizou minha primeira frustração no futebol. Havia vários prêmios na barraquinha do bingo. Queria muito a camisa 21 do Brasil recém bicampeão no Chile autografada pelo próprio, mas acabei ganhando uma panela de pressão Marmicok.
Zagallo dava sorte era para ele mesmo. Cismava com o número treze e nele confiou sua vida inteira. Vive dizendo com seu fiapo de voz “Vai, Brasil! Hexa!”. Contaram as letras?
Zagallo nunca foi craque. Sempre foi discreto em campo e inventivo no futebol. Quando desceu do Corpo de Bombeiros em 58 com a taça na mão, foi direto para a galeria dos ídolos do Botafogo. E lá ficou. Foi campeão em 61 e 62, dois Rio-São Paulos e diversos torneios pela América do Sul e Europa. Sempre como ponta esquerda de meio campo, num time que tinha Manga, Nilton Santos, Garrincha, Didi, Quarentinha, Amarildo e ele, formiguinha correndo o campo todo, sem posição definida, desarmando, cobrindo a defesa, dando assistência, fazendo gol. Como técnico, estreou nos juvenis do Botafogo – mais uma vez campeão – revelando craques como Rogério, Roberto, Jairzinho e Paulo Cesar, nomes que a História cuidou de eternizar. Zagallo ainda foi treinador de outros clubes. Dizia meu pai tricolor que todo amante da arte do futebol deveria andar com uma miniatura do Zagallo pendurada no pescoço para dar sorte, pois não perdia um campeonato.
Mas foi na Seleção que sua estrela brilhou com mais intensidade. Tanto quanto em 58 e 62 como jogador, e como técnico em 70, substituindo, às vésperas da Copa do México, João Saldanha. Zagallo não mexeu muito no time base, muito bem convocado pelo antecessor. Apenas – apenas?! – recuou o habilidoso volante Piazza para a quarta zaga, promoveu o jovem Clodoaldo no meio campo, inventou o até então reserva Rivellino como meia pela ponta esquerda e trouxe de volta para o ataque nada menos que Pelé, acusado por Saldanha de míope, incapaz de jogar ao lado de Tostão. Saldanha era ferrenho em suas convicções. Uma vez botou o goleiro Manga para correr a tiros na sede do Botafogo e numa outra, quando foi tomar satisfações com um dono de farmácia em Copacabana que maltratara sua empregada, sacou o revólver e mandou bala numa prateleira de Modess.
Zagallo também tinha suas manias. Era controverso. Meu avô tinha pinimba com ele porque deixou os aspirantes do América, clube que o acolheu desde dos tempos em que jogava peteca, para ser profissional no Flamengo. Tijucano conservador, Zagallo era tido como reacionário por alguns que misturam vida pessoal, futebol e política. Hoje se estivesse plenamente ativo seria carimbado de coxinha.
Claro, ganhou e perdeu. Envelheceu e errou, como todos nós envelhecemos e erramos, não necessariamente na mesma ordem. Em 74, teimou em não escalar Ademir da Guia e acabou tendo tonturas com o carrossel holandês. Resultado: quarto lugar com um time 4 anos mais velho do que os virtuoses de 70, sem Pelé, sem Tostão, sem Carlos Alberto, sem Gérson, sem brilho, sem emoção. Em 98, também errou feio ao não se dar conta da incapacidade física, neurológica e emocional de Ronaldo e aceitar colocá-lo em campo na final contra a França. Ok, fomos vices, traumáticos segundos colocados numa Copa do Mundo. Mas no Brasil binário, que só enxerga céu e inferno, vice é demérito, piada pronta para chatear vascaínos.
Zagallo era irritadiço em entrevistas, vivia às turras com jornalistas radicais. Depois de mais uma conquista na sua vida, a Copa América de 1997, o chamado Velho Lobo mostrou seus caninos para as câmeras de televisão: “Vocês vão ter que me engolir!” Virou bordão de chiliquentos.
Gerson, o canhotinha de ouro, seu eterno camisa 8 no Botafogo e na Seleção, numa entrevista recente, falou de Zagallo com os olhos encharcados: “Tinham que construir uma estátua dele, do tamanho o Cristo Redentor, na entrada da sede da CBF”. Exagero justificado: queiram ou não queiram, Zagallo carrega o maior Curriculum Vitae do futebol brasileiro e planetário. O único tetra campeão do mundo. Duas Copas como jogador, uma como treinador e outra com coordenador técnico. Querem mais? Sempre teve estrela. Visionário, depois de carregar a tocha olímpica em 2016 no Rio, numa cadeira de rodas, balbuciou com a debilidade da sua voz: “Dessa vez o ouro é nosso.”. Deu no que deu.
Se o tempo foi desbotando minha figurinha, minha admiração e respeito por ele permanecem inabalados porque tem traços de ser humano: correto, apaixonado, incoerente, imperfeito, complexo, justo, teimoso e gentil.
Em maio visitou a Granja Comary, reuniu os jogadores do Tite para uma preleção emocionada e emocionante. Não foi brilhante – de fato nunca fora -, mas preciso, contundente e, tomara, profético. Mesmo quase afônico e com as palavras em câmera lenta deixou sua marca: “Vocês estão muito bem preparados.” Que a História, a sabedoria e a estrela do Velho Lobo iluminem a rapaziada amanhã no Spartak de Moscou. Tenham paciência, caprichem na pontaria, passem para quem tem melhor condição, nada de chiliques e joguem o que sabem. E, por favor, não matem o velho.

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