AQUECENDO.

Goal keeper, back, center half, center forward, corner, offside, fowl, scratch nacional. Quando me apaixonei
por futebol, esse era o idioma. Não foi difícil encantar o coração aberto de um menino de 5 anos. Também não foi difícil perpetuar esse encantamento até hoje,
vivendo minha décima sexta Copa do Mundo. Sou um privilegiado. Entreguei meu coração ao artista em movimento, à prática da inteligência espacial, ao domínio da bola e do corpo, ao balé improvisado, ao reality show mais imprevisível do mundo. Tenho saudade, mas não
sou saudosista. “No meu tempo” já morreu, está nos escaninhos da memória feliz. Meu tempo é agora: de Neymar, Marcelo, Gabriel Jesus, Tite e cia. De patrocinadores exagerados, da mídia intensa, dos anunciantes repetitivos, dos comerciais chatos e de jogadores que nem jogam aqui. Nem tem jogador do meu Botafogo, time de histórica afinidade com Copas do
Mundo, quando até o estabanado Josimar brilhou em 86. Tudo evoluiu, ficou melhor, ficou pior, não importa, não fico como aquele defensor russo procurando Garrincha até hoje. Vida que segue, bola pra frente. Parece que a Copa só começou pra mim ou para poucos ao meu redor. O coletivo está cabisbaixo. Sinto o Brasil uma civilização deteriorada, sobrevivendo na areia movediça,
onde a desesperança é a última que morre. E daí? Nunca misturei a utopia da Copa com a distopia ou a bonança de seus contextos. Brasil foi campeão com a alegria de JK. Foi campeão com Jango, quando o Golpe Militar estava em gestação. Foi campeão em plena Ditatura criminosa, com o perdão da redundância. Foi campeão com Itamar, com FHC oito anos depois, meses antes de Lula receber a faixa de presidente. Não, taças ele não levantou, mas qual o problema? Político levantar taça não significa nada. Os militares e a esquerda argentina se abraçaram em 78, quando foram campeões.
Quatro anos depois, choraram juntos a perda da Copa e das Malvinas. João Saldanha – olha o saudosismo do bem de novo – dizia: “A Itália ganhou uma Copa em pleno regime fascista e Mussolini acabou pendurado de cabeça pra baixo num posto de gasolina em Milão.” Pois que venha a Copa da Rússia com a magia e o inesperado que só o futebol tira da cartola. O encanto das quatro linhas resiste dentro de mim. Ainda bem. Vou torcer pela Seleção Brasileira como faço desde 1958. Estou quase completando o álbum de hoje. Sinto a presença do meu pai, do meu avô, da minha mãe que só torcia pelo América e não via jogo da Seleção porque ficava “muito nervosa”. E, claro, da minha avó supersticiosa que na final de 62 escreveu o nome do goleiro tcheco Schroif num papelzinho, escondeu no chinelo e pisou nele o jogo inteiro, tanto que o infeliz de bonezinho largou uma bola
nos pés do Vavá. Deu certo: gol da minha avó. Ouço o cachorro do vizinho latindo comprido a cada gol.
Ouço amigos queridos desconvocados precocemente da vida. Estou no aquecimento. Leio tudo, vejo tudo, acompanho a rotina dos treinamentos – ôpa! O sexo foi liberado nas folgas! Vou chorar pelo sim, pelo não, vou me emocionar, vou abraçar mulher, filhas, filhos, neta, neto, amigos, família. Copa do Mundo é sentimento intimista, cada um que tenha o seu. É ritual, é memória, é celebração de talento, é nó na garganta. Há quem possa me ajuizar de escapista, coxinha, herege. Pois, confesso: gosto mais do que Natal. E por falar nisso,
Feliz Copa do Mundo para todos.

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