Sobre Marta, Jamaica e ser humano

– Curtiu escrever as crônicas da Copa da Rússia?
– Muito.
– Topa escrever sobre a Copa de futebol feminino?
– Sem chance. Não acompanho e não sei nada sobre.
– Sabe vôlei? Tem masculino e feminino.
– É diferente.
– As ações dos homens são mais rígidas; no jogo das mulheres existe a mesma tensão, só que menos violenta.
– Futebol feminino parece outro esporte.
– Você ouviu o que você disse?
– Quis enfatizar as diferenças.
– Assuma que falou bobagem.
– Foi mal.
– E?
– Estou sendo convidado a escrever e tentando justificar a recusa.
– Seus argumentos não me convenceram.
– Cresci ouvindo que futebol é jogo pra homem e eu tenho impressão de que elas estão mais preocupadas com a estética.
– Só por ser mulher? Não existe beleza no masculino?
– Sim, mas o balanço, o jogo de cintura, o molejo só mulheres possuem.
– Que machista!…
– Você e suas definições absolutas.
– Por que elas incomodam tanto?
– Elas choram quando perdem e quando ganham!
– A Copa no Brasil foi uma choradeira geral de um time de homens.
– Tem razão, chegou a ser constrangedor.
– Você já viu de perto dois atletas disputando bola?
– Não.
– Pois eu vi, do alambrado da Vila Belmiro, a dois metros. Se fosse minha perna, nunca mais voltaria a andar tamanha a força dos dois sujeitos viris e violentos – insensatos, eu diria.
– É disso que estou falando: as mulheres são frágeis, menos violentas, menos ousadas, cautelosas.
– Engano seu; a força é proporcional. E sem essa de dizer que são elegantes e cuidadosas. Às vezes, são brutas iguais aos homens e repetem o pior deles. As diferenças são características de cada modalidade.
– Entendi.
– E aí, vai ou não escrever?
– E se eu falar bobagens?
– Até Vadão, o técnico, confundiu as bolas. Referiu-se à feminina Jamaica como típico time de estilo africano de jogar.
– Por que pensei em moda quando você falou em estilo?
– Porque, mesmo tendo boa vontade, você é preconceituoso. Alguns dos grandes estilistas da história são homens.
– Todo mundo tem preconceitos.
– Não relativize…bem, o que você sabe sobre futebol feminino?
– Que Martha é a melhor jogadora do mundo – ganhou o troféu Fifa seis vezes consecutivas. Melhor que milhares de jogadores, craque indiscutível, fora da curva. Podia atuar no masculino.
– Não, não podia. Martha é mulher, tem padrão feminino de jogar e exibe talento no lugar certo.
– É difícil superar estereótipos.
– Certa vez, a editora de cultura do Correio Popular de Campinas, Lalá Ruiz, me disse: “você vai passar um dia na São Paulo Fashion Week.” Não entendo nada de moda, nunca vi desfiles e nem me interessa. A ousadia dela me colocou em um evento de moda.
– Você foi?
– “Um dia de fashionista” foi o título da reportagem de maior sucesso da minha carreira de 30 anos em jornal impresso – nunca recebi tantos e-mails, telefonemas e cumprimentos. Fui até sorteado com uma melissinha, mas o que eu faria com aquilo!? Dei de presente a uma colega de trabalho e provoquei ira das mulheres da minha família.
– Está bem, topo e peço licença a elas pelo atrevimento. Prometo ter cuidado nas comparações e as agradeço por suportarem meu viciado olhar masculino. Só lhes peço a permissão para olhá-las do meu jeito o jeito delas.
– E o que acha do jogo delas?
– Há um discreto charme no modo de atuar.
– Você diria o mesmo do futebol masculino?
– Sim. O passe delicado de David Beckham, a corrida de gazela do Van Basten, “a elegância sutil de Bobô”.
– Então, sente e escreva.
– Não quero cair no estereótipo, mas, tampouco desejo perder a delicadeza. Fica mal se logo na primeira crônica eu disser que elas jogam um futebol cheio de graça.
– Não, você não vai completar dizendo que elas passam “em um doce balanço a caminho do mar”.
– Por que não?
– Porque bossanovistas, em geral, são considerados machistas.
– Como assim? Impossível imaginar os sensíveis Jobim e Vinícius como machistas. Quem escreveu esses versos lindos só pode ter alma feminina.
– Faz o seguinte: com todo o respeito, atento aos limites e à permissão (ou não) do outro você cita os versos. Se forem bem aceitos, continua; se, não, desiste.
– Elas vão curtir porque os versos vão além de rótulos e gêneros e eu os acolho não no papel de mulher ou de homem, mas na vibração da delicadeza que existe na essência de ser humano.

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