Torcida da Costa Rica

Oto, meu morcego confidente e mensageiro me disse que morcegos de uma outra caverna pediram para ver o jogo do Brasil contra a Costa Rica na nossa caverna. Ele deixou e eu também não vi razão para recusar.
Faltava uma meia hora para o jogo começar quando os visitantes chegaram. Quietos, um tanto desconfiados, se arranjaram de cabeça para baixo numa parede lateral de onde se podia ver bem a telinha.
Arnaldo, o bagre cego que mora no lago da caverna estava todo verde e amarelo. Ele tem DNA de camaleão, é capaz de mudar de cor a qualquer hora. Milhares de nossos morceguinhos agitavam suas bandeirinhas e farfalhavam as asas em rasantes espetaculares.
Começa o jogo, Brasil no ataque, bola que vai, bola que vem, toque pra cá, toque pra lá e nada de perigo de gol. Sim, porque torcedor gosta de perigo de gol, tanto quanto do gol. E a tensão aumentando, aumentando, de repente… ataque da Costa Rica, um raro ataque deles. Aí a gente ouviu lá da parede lateral um huuuuu com sotaque estranho. Brasil com a bola, que gira, gira, gira, vai de pé em pé e nada de perigo de gol, muito menos gol. Falta para a Costa Rica, bola para a área e novamente um huuuuu e uns guinchos estranhos, mas agora, sem dúvida, com sotaque espanhol. Os morcegos visitantes, descobrimos, eram costarriquenhos!
A partir daí, enquanto o jogo seguia morno, a plateia esquentou. Havia mais rivalidade na torcida que no campo. Nossos morceguinhos davam rasantes sobre os visitantes, que retribuíam mostrando os dentes e farfalhando as asas enormes – eles eram maiores que os nossos.
Quando terminou o primeiro tempo, embora não tivéssemos brigas, a rivalidade estava estabelecida. Nossos morceguinhos já marcavam para o fim de semana uma partida de fuitbol com os visitantes.
Começa o segundo tempo. Douglas Costa vem para o jogo. O Brasil começa melhor, Douglas coloca velocidade no time, Neymar melhora, mas Navas pega tudo para a Costa Rica. A torcida brasileira enlouquece, Arnaldo, o bagre, dá cabriolas no lago. A bola não entra, os morcegos visitantes roem as unhas. Oto me olha assustado, me pergunta o que eu acho. Eu, eu acho bom assim, gosto de jogo tenso. E para piorar a tensão eu digo ao Oto que se o Brasil empatar com a Costa Rica e se a Sérvia ganhar da Suíça, estamos fritos. Só temos uma solução: ganhar. Oto arregalou os olhos. Arnaldo clamava por Ricardo Teixeira, Marin. Acendeu vela dentro d`água para Del Nero.
O jogo chega aos 45 minutos, os morcegos costarriquenhos esfregam as asas, olham com cara de gozação para os nossos. Os nossos roem as unhas, caem do teto por falta de unhas e nada da bola entrar. Tudo dá certo para a defesa da Costa Rica. Aí, aí… uma bola dentro da área sobra para Jesus, que toca meio sem querer para Coutinho que mete de bico entre as pernas de Navas. Gol, explosão de emoções, o coração sai pela boca, alívio, guinchos, guinchos e guinchos, gozação em cima dos costarriquenhos. Alguns deles choram, caem do teto. Os jogadores da Costa Rica, que bateram o recorde de quedas e ceras, agora tinham pressa. E o Brasil não. Bola de pé em pé, com calma, adversários na roda. E, sem pressão, jogadas perfeitas, no finalzinho do finalzinho, mais um gol, o gol tão esperado do Neymar, facinho. Nossos visitantes saem em revoada, em silêncio, e os nossos na gozação, dando rasantes sobre eles. Arnaldo exultava, quase saltou fora do lago, jurava que tinha visto Del Nero no meio da torcida da Costa Rica, o que, para ele, decidiu o jogo.
No final da tarde saí da caverna e fui ver o pôr-do-sol. Aurora me fez companhia.
– Como foi o jogo para você Aurora?
– Não vi. Preferi sintonizar minha TV no canal Z33 duas horas antes do jogo. Ele me mostrou o que eu queria ver.
– E quanto foi o jogo lá?
– Dois a zero para o Brasil.

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