Primeira crônica Copa do Mundo 2018

Não recebo correspondências. Do mundo pouco sei, a não ser o que Oto, meu morcego mensageiro e confidente, me conta quando chega de suas voanças pelos quatro cantos do mundo, seu mundo, pois que os mundos são muitos e cada qual do tamanho de cada pessoa. Meu isolamento é voluntário, movido pelo que vi no mundão de todo mundo e no mundinho do futebol, minha paixão mais antiga. Deixei para trás tudo, quer dizer, quase tudo, e não me perguntem sobre esse tudo, porque não tenho contas a prestar.

Sei da Copa da Rússia, país, dizem, lindo e gelado, queaproveita o pouquinho tempo de calor do ano para fazer a Copa. Com as pernas de fora os jogadores de outras partes congelariam outras partes em outras partes do ano e os russos seriam campeões.

Oto fala. Sei lá onde aprendeu a falar. Aqui na caverna onde moro tem milhares e milhares de outros morcegos e nenhum deles fala. Oto fala e muito. Chegou há três dias cheio de novidades e carregando uma bandeirinha verde e amarela. Incendiou a população de quirópteros. Os bichinhos guincham muito e parecem todos iguais, menos Oto, que acredita em quase tudo que vê e ouve, e também porque fala, é diferente. Improvisaram bandeiras com folhas e flores e a caverna que divido com eles virou arquibancada. O engraçado é que assistem os jogos de cabeça para baixo, não os jogos, eles. Mas sinto menos vibração este ano.

Tenho minha TV, meio velha mas funciona, bateria solar. Vou assistir aos jogos junto com os morceguinhos e Arnaldo, o bagre cego que mora no lago da caverna. Arnaldo anda revoltado. Diz que sem Ricardo Teixeira, José Maria Marim e Marco Polo Del Nero a Copa não é Copa. O bagre vê o Brasil com chances reduzidíssimas de êxito na Rússia dada a ausência dos homens que revolucionaram o futebol brasileiro. Dias atrás andou conclamando os morceguinhos a um movimento pela intervenção militar já. Ele acha que cinco milhões de morcegos invadindo cidades param o Brasil.

A nossa Copa começa contra a Suíça, time retranqueiro, que complica a vida de muito time bom. Os morceguinhos estão tensos. Até de noite estão fazendo barulho. Me acordaram, perdi o sono e saí da caverna. O céu estava bonito, cheio de estrelas, sem lua, são quatro da madrugada. Nestes grotões as noites são bonitas. Encontrei Aurora, também insone.

– Perdeu o sono? – perguntei.

– Não costumo dormir a esta hora. Sou ave noturna. Gosto de esperar a aurora.

De fato, no horizonte, pouco depois, os primeiros sinais do dia surgiam. Aurora é uma coruja. Também fala. Migrou para cá depois que seu marido morreu, atingido por um petardo no ângulo superior direito do travessão. Ele tinha mania de pousar ali e a pelota atingiu-o em cheio. Triste e cética, a coruja entocou-se ao lado da caverna. É cética e sábia, ponderada.Comeu vários morceguinhos antes de ser proibida de entrar na caverna.

– E o jogo hoje Aurora?

– Não sei o seu, mas o meu será como eu quiser.

A coruja tem uma TV em sua toca. Quando quer, sintoniza o aparelho no canal Z33, que só mostra o que a gente quer ver. Dependendo do seu humor, o Brasil ganhará ou perderá. De vez em quando, quando menos aguento o mundo, assisto o Brasil pela Z33 junto com ela.

Não revelei onde fica minha caverna por motivos óbvios. Oto levará esta crônica no bico e a entregará onde tiver que entregar. Ele nunca falha. Voltará a tempo de assistir ao jogo. Ficarei com os morcegos, mas conforme o andamento do jogo, irei para a toca de Aurora.

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