O talento da menina

Era doida por futebol. Treinava escondida com a bola de borracha do irmão, seu cúmplice e parceiro de dribles e embaixadas, mas que fazia chantagem quando queria alguma coisa dela.
– Se você não fizer a lição pra mim, conto pra a mãe que você treina escondida.
E ela fazia a lição e muito mais que ele pedisse, porque era doida por futebol. Queria jogar num time, e um dia apareceu uma chance. Era pra jogar no campo do bairro vizinho, no time das meninas de lá. Mas tinha um problema, o pai não podia nem imaginar ela jogando como homem! A mãe não dizia nada, não era contra nem a favor, mas seguia o que o pai dissesse.
– Futebol é coisa de homem – o pai dizia. – E nem para homem presta. Filha minha eu não deixo jogar jogo de mulher, quanto mais de homem.
Ela e o irmão tinham que tramar um jeito de irem ao jogo. As meninas do bairro vizinho não sabiam se ela jogava mal ou bem, mas botavam fé na palavra do irmão, amigo de algumas delas. Faltava uma atacante para completar o onze.
– Até chapéu em mim ela já deu! – ele disse.
Combinaram que a desculpa seria um piquenique da moçada da escola, perto dali, no parquinho da prefeitura. “Vai mãe, deixa, algumas mães também irão, até a senhora pode ir”. A mãe disse que não tinha tempo para isso, mas que por ela tudo bem. Tinham que ver com o pai. Disseram mentira pra a mãe, mas era por boa causa. Sairiam logo cedo, ali pelas oito horas e voltariam antes das onze.
Foram ao pai, disseram que a mãe tinha deixado. Mas o pai era osso duro de roer, até com isso ele implicou.
– E a missa? Vão perder a missa?
– Não pai, a gente vai na missa das seis da tarde no domingo.
A mãe entrou na conversa, ajudou um pouquinho e o pai acabou por concordar. O jogo era às nove, a ansiedade grande. Foram caminhando, não era longe. A menina, tímida, toda envergonhada, nem teve coragem de falar com as outras meninas. O irmão falou, elas gostavam dele. Deram a camisa onze, a menina era canhota, que jogasse bem aberta na esquerda. O time adversário era mais experiente, as meninas um pouco maiores, uns doze ou treze anos.
Combinaram um jogo de setenta minutos, trinta e cinco em cada tempo. Com quinze já estava dois a zero para as adversárias. E a menina lá na esquerda, isolada, mal pegava na bola. Seu time recuou, segurou o dois a zero para não tomar de mais, e assim terminou o primeiro tempo. Ela ficou na dela, intimidada, sabia que tinha jogado mal, não por sua culpa, não recebeu bolas, as outras olhavam com desconfiança, até com hostilidade. Mas não tinha outra, só tinham onze mesmo! E o segundo tempo começou. Cansada da solidão da ponta esquerda, a menina voltou, foi mais para o meio e a bola chegou. Chegou, ela se livrou de uma adversária e lançou bonito, bola limpa, na entrada da área. Uma companheira entrou correndo e só fez tocar para as redes (que nem rede havia); dois a um. Pronto, a menina cresceu, foi elogiada pela torcida. E passou a se movimentar mais, a pegar mais na bola. A bola vinha e ela não se livrava dela; dominava, girava, olhava e lançava bonito. Aos vinte do segundo tempo uma das garotas entrou pela direita, cruzou, a goleira adversária falhou e a centroavante empatou o jogo. Aí o jogo ficou aberto, lá e cá, um monte de quase gol. Tudo indicava que terminaria em empate.
Legal era que não tinha juiz, as meninas sabiam quando parar. Uma das mães do time adversário marcava o tempo e disse que só faltavam cinco minutos. Foi quando a menina pegou a bola no meio do campo, mais pelo lado esquerdo, levantou a cabeça e não viu nenhuma companheira à sua frente. Fez que ia esperar as que vinham correndo de trás, deixou que duas delas passassem à frente, ameaçou o passe, mas não, enganou as marcadoras, passou correndo pela intermediária, enfiou a bola entre as pernas da zagueira grandalhona e meteu lá no cantinho direito, a goleira sem ação, olhando desolada a bola que entrava.
Foi uma festa, o jogo terminava, faltavam três minutos. A ordem então foi jogar a bola na menina pra ela segurar. E ela segurava, levava a bola até a linha de fundo, voltava, sofria faltas. E ainda quase fez o quarto gol no último minuto.
Na volta pra casa, depois do banho para o pai não desconfiar, o irmão estava eufórico. Já via a irmã jogando no time de base do Santos, da Ferroviária ou do São Paulo. Mas as marcas roxas nas canelas da irmã preocupavam. O pai ia perceber e aquilo parecia mesmo pancada de futebol.
– Vou dizer que foi você que me chutou porque brigamos – disse a menina.
– Mas aí eu me ferro – ele disse.
No fim, concordou. E foi o que disseram em casa quando o pai perguntou dos roxos nas canelas. O irmão ficou uma semana sem sair; da escola para casa e só. Ela ficou com pena e agradeceu, mas ele disse que valeu a pena. Estava orgulhoso da irmã. Ela tinha talento, tinha jeito, era craque. Tinha que continuar jogando. E eles teriam que pensar num jeito de resolver isso.

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