O caneco é nosso

Ficou amuado com o que lhe disseram os amigos: aquilo não era jeito de torcer pelo Brasil. Como não era? Tinha sido sempre assim, desde pequenininho. O pai pegava uma bandeira, a mãe uma vela, o irmão mais velho a corneta, os amigos chegavam, já mamados, e faziam a maior bagunça. E quando o Brasil perdia era um chororô; chorava mãe, chorava pai, chorava toda a família. E só porque ele levou a corneta que o irmão lhe deixou antes de morrer e soprou no ouvido dos amigos do escritório, porque ele trabalhava num escritório chique de publicidade, disseram que ele era grosso. E também só porque ele xingou o juiz de tudo quanto foi nome, e porque ele chorou quando o Brasil fez o primeiro gol, disseram que aquilo não caía bem para um funcionário de uma empresa tão conceituada. É, porque eles tinham uma espécie de código para torcer. Camisa, só a oficial da CBF, mais de quatrocentos paus, bandeira, só uma, colocada no canto da sala, nada de xingamento ou de apito. O pessoal gostava de comentários técnicos e a maioria falava mal da seleção brasileira. Era a primeira Copa que ele passava naquela empresa de publicidade; antes ele trabalhava na publicidade de um magazine.
Ficou tão amuado que jurou procurar outro emprego depois da Copa. E se o Brasil passar de fase não vai mais assistir jogo no escritório, mas em algum boteco de bairro, onde se podia tomar brama e xingar o juiz. Ora, não é porque ele fez faculdade, e até mestrado, que vai deixar de fazer aquilo que fazia com a família e os amigos e era tão gostoso.
Quatro dias depois ele nem apareceu no escritório. Era dia de jogo do Brasil. Juntou os amigos e foi fazer um esquenta no boteco do bairro onde nasceu, esse sim, todo enfeitado de verde e amarelo e onde o Brasil já ganhou. Brasil e Bélgica. Belgica? Do tamanho de Sergipe, vai ganhar de quem? De nós é que não. Que venha o Uruguai, que venha a França, que venha a Inglaterra, que o caneco já é nosso.

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