Depois de Brasil e Bélgica

Foram tantos os dias de agitação, que o silêncio na caverna parecia bem maior que o habitual. Era noite ainda, mas saí para respirar. Pela primeira vez o ar frio lá fora era menos silencioso que o ar de minha caverna. Os morcegos que a compartilham comigo, tão agitados durante os jogos do Brasil, estavam imóveis, pendurados de cabeça para baixo numa imobilidade preocupante. Eu observava o brilho das estrelas quando encontrei Aurora, minha amiga coruja. Ela também não tinha sono. Não se abalava mais pelos maus resultados no futebol, mas ainda se entristecia.
– Oi Aurora, perdeu o sono? – perguntei quando ela pousou num mourão ao meu lado.
– É, depois do jogo fiquei pensando em algumas coisas.
– O que você achou? Erramos muito?
– Perder faz parte do jogo – ela respondeu. – Foram realizados até agora 21 campeonatos mundiais de futebol masculino. O Brasil venceu 5, ou 25% do total. Não podemos vencer todos. São quase 200 países querendo a mesma coisa. É que brasileiro não admite nada que não seja o título máximo. Não somos bons em muita coisa e, naquilo em que o somos, frustra-nos demais a derrota.
– Mas você acha que a Bélgica está melhor que o Brasil? – tornei a perguntar.
– Sim, neste momento sim. Pode ser que no mês que vem não, mas no esporte é assim, cada momento é diferente de todos os outros.
E nessa conversa o tempo passou, até que os primeiros clarões anunciaram a aurora, não a ave, mas o fenômeno do nascimento do sol.
– Sabe Aurora – eu falei-, antes de vir para a caverna não fui só torcedor, trabalhei muitos anos como técnico, em várias modalidades do esporte. Acho que perdi mais que ganhei e sempre foi difícil para mim assimilar as derrotas.
Aurora, claro, nunca foi técnica de esportes. Ela é uma ave e não existe esporte entre os bichos, tudo deles é sério. Mas ela viveu à beira de gramados por muitos anos e teve a oportunidade de fazer boas observações. Prestar atenção é muito típico das corujas.
Aurora acha que é normal a gente digerir melhor as vitórias que as derrotas. Para ela, as vitórias provocam sentimentos de dentro para fora, como explosões de alegria em forma de choro, de gritos, gemidos, palavras. São coisas que saem, que nos esgotam, nos deixam vazios. Horas depois já não há o que comemorar, sai tudo de uma vez, embora as pessoas aproveitem a oportunidade, no caso do futebol e das Copas, para ampliar a comemoração a outras coisas da vida, pois que a vitória do seu time já esgotou seu potencial de alegrias. As derrotas não, são de difícil digestão, não são de dentro para fora, mas de fora para dentro, coisas que a gente tem que engolir. As derrotas não nos esvaziam, nos enchem, são amargas, indigestas e nosso organismo levará um bom tempo para dar conta de tudo isso. No começo parece até que nunca passará. Mas o tempo mostra que os efeitos danosos diminuem e, aos poucos, a dor da derrota é substituída por argumentos que aliviam, por sentimentos bons, e por outros acontecimentos que lhes tomam o lugar.
– E no canal Z33 de sua TV, aquele que só mostra o que a gente quer ver? Quanto foi o jogo do Brasil nele Aurora?
– Três a um para o Brasil.
– E a final?
– Não sei – disse ela arrepiando as penas. – Mas será como eu quiser.
Quando falávamos sobre isso vimos alguns morceguinhos batendo as asas e saindo da caverna atrás de umas mariposas que, inadvertidamente, passavam pelo local. As estrelas aos poucos sumiam, apagadas pelo sol que não lhes suporta a concorrência.

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