A lágrima do olho esquerdo

O pai viu a menina jogando. Ele desconfiou quando ela e o irmão saíram três domingos seguidos, dizendo que iam ao piquenique da escola. “Não é possível que a escola tenha tanto piquenique”, o pai pensou, e decidiu vigiar. Esperou o domingo e foi atrás. Eram oito da manhã. Foi dar no campinho do outro bairro, viu a menina com a camisa do time entrar em campo descalça, lá na frente, de armadora e atacante ao mesmo tempo. Ele ficou com raiva quando viu, mas depois chorou, porque a filha jogava muita bola, era a craque do time, e todos os que estavam à volta do campo gritaram seu nome quando a menina fez o gol da vitória. Mas, e aí, como dizer em casa que podia aceitar; além de jogar aquele jogo que ele condenava tanto, ainda mentia para sair de casa. E como voltar atrás, ele que fazia sermão atrás de sermão, dizendo que futebol era coisa de homem, e que nem para homem era bom. O certo era o castigo, a proibição. Mas ele chorou quando viu a filha jogando e fazendo o gol, e aquela emoção saiu de dentro dele até contra a vontade, bem que o pai tentou segurar, mas era a filha dele ali, não importa que era o futebol, ela era boa no que fazia. E quando todo mundo gritava o nome da filha ele dizia baixinho, “É a minha filha”, e enxugava uma lágrima teimosa que vertia do olho esquerdo. Ele sempre foi canhoto para chorar, a filha para chutar.
O pai voltou para casa escondido, chegou antes dos filhos. Não disse nada e escutou com paciência os relatos, a gostosura que foi o piquenique. Até achou graça quando a filha mostrou a canela machucada, roxa, que aconteceu quando ela resolveu subir numa árvore. “Eu já disse para tomar cuidado”, o pai falou, e mais não disse, o almoço estava pronto e eles foram para a mesa.
O pai tinha que contar para a mãe. Aquilo não era coisa que se escondia. E o medo do que ela ia dizer? Depois de tudo que falou sobre a filha jogar futebol! Mas ele tinha que contar e de noite contou. “Eu sabia!”, a mãe disse.

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