Festa do alienado

Talvez a primeira vez que ouvi a expressão copa do mundo tenha sido em 1958, menina pequena, descobri pela animação do meu pai, que algo importante estava acontecendo. Aos poucos foram chegando alguns vizinhos e a euforia tomou conta do pequeno grupo que se acomodou em algumas cadeiras em torno de um rádio de pilhas, se a lembrança estiver certa, arranjado especialmente para a ocasião e assentado em um caixote que foi posto num lugar estrategicamente escolhido para que a antena, envolta numa palha de aço, captasse o melhor sinal de transmissão, o que se esperava era diminuir os chiados, lembrem-se, era década de 50. Aquelas pessoas rudes estavam diante de uma oportunidade de se conectar com o mundo. Os homens, sem muita cerimônia, se apossaram do ambiente e as crianças foram convidadas a sair para brincar no quintal.

Eu já tinha uma vaga noção do que era futebol, por observação, entendi, na minha pequenez, que futebol era coisa de homem e que mulher pouco se interessava por aquilo. Todos meus amiguinhos, moleques, quando não estavam na escola, se encontravam atrás de uma bola que podia ser também uma bolota de meias velhas enroladas, ou qualquer outro objeto que se prestasse a ser chutado. Tempos distantes em que os folguedos se dividam em brincadeiras de meninos e brincadeiras de meninas, enfatizando desde cedo à segregação. Só mais tarde, na puberdade, esses jovens voltariam a se juntar para o beijo, abraço ou aperto de mão. E pensar que, muitos anos depois, minha filha seria goleira no time de futebol feminino de Vinhedo.

Mas olhem só, quando se tratava de torcida, aí não havia gênero, éramos todos iguais. Papai, como um bom torcedor que foi, um dia nos chamou, a mim e aos meus irmãos para nos ensinar o significado de torcer por um time, poderia ser qualquer time, mas torcer queria dizer empunhar a bandeira, orgulhar-se do feito, dar apoio, animar, era assim que deveria ser. Ao mesmo tempo, o velho esperto, atrelou nossa decisão de escolha à noção de patriotismo e pertencimento, logo, como morávamos em São Paulo, por coerência, fomos induzidos a concluir que o time por excelência deveria ser o São Paulo Futebol Clube. Assim foi feito, quatro filhos, quatro flâmulas, quatro São Paulinos convictos torcendo pelo seu time do coração.

Nunca me importei, de fato, com futebol, coisa de menina? Talvez. Gosto de festas e quando elas acontecem fico feliz. Imagino que fui assim desde sempre. Hoje, ao escrever esta crônica, entendi que minha relação com o futebol também é assim, festiva, feita de encontros. As lembranças de 58 estão impregnadas de afeto. Havia no ar um zum-zum-zum e uma energia tal que as pessoas pareciam flanar,naquele instante elas não eram mais, estavam em sintonia, não havia miséria, pobres e ricos vibravam numa só direção, tudo parecia perfeito, no ar uma certa magia e nos rostos a esperança gratuita de um grupo que, em volta do rádio, aguardava ansiosamente o início do jogo, rezavam por uma transmissão que não os deixassem na mão e torciam pelo apito final feliz, tão almejado pelos brasileiros. Só se falava nisso, aqueles homens, sem dúvida, eram a representação de cada torcedor, via-se em seus rostos a alegria incontida antecipando-se à possibilidade do Brasil, pela primeira vez,tornar-se campeão. Os nomes Didi, Garrincha e Pelé foram exaltados, narrados, gritados incontáveis vezes até à consagração da vitória do Brasil, que os revelou novos heróis populares. A euforia de meu pai e seus amigos expandiu-se animadamente para o quintal onde nós crianças, aos pulos, contagiadas pela atmosfera,participávamos da festa contando balões que forravam o céu de verde e amarelo… Balão pião, olha um caixa… mexerica e as gargalhadas se misturavam aos fogos de artifício e aos vivas roucos e enlouquecidos de Brasil campeão.

O tempo passou e tantas outras copas aconteceram, Brasil foi campeão mais quatro vezes, confesso, em nenhuma delas eu vibrei como nos meus oito anos.  Estou aqui pensando que a primeira vez não se esquece jamais; fica guardada no coração.

Houve um tempo em que fiz algumas tentativas de me aproximar mais do futebol. Na adolescência frequentava o Morumbi com minhas primas, íamos às festas no clube que angariava recursos para terminar a construção do estádio, o que demorou muito para acontecer. Meu tio, mais abastado e torcedor fanático, fazia questão de colaborar, tinha até uma cadeira cativa com seu nome gravado numa plaquinha de metal, o que lhe dava um certo orgulho. Vez em quando, ele nos convidava para assistir aos jogos do São Paulo. Pura festa. Mais tarde, já casada, frequentei com meu marido outros estádios, pra ver o Palmeiras jogar. Puro companheirismo. Para mim, estes são momentos que se traduzem em acontecimentos. O futebol é pretexto para o estar juntos. O que gosto mesmo é da diversão, da vibração, da alegria,da confraternização. No mais, fico alheia, sequer entendo as regras do jogo, muitas vezes faço semblante para participar da roda. Sei que bola na rede é gol e que o pênalti é a penalização máxima que uma falta pode obter, mas esse negócio de impedimento, escanteio, nossa, coisa difícil. Gosto de me inteirar do resultado, quem ganhou, mas nunca sei quem vai jogar com quem na próxima rodada. Eu preciso ser informada a cada vez, atualizada da classificação. Agora, os jogos da copa do mundo, Brasil, estes assisto com mais interesse, torço, faço folclore visto uma camisa, mas, o que me dá prazer é a festa com os amigos, são eles quem tornam a copa um evento saboroso, capaz de suspender por um instante, a dor de torcer por um Brasil tão destruído.

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