Amor nos tempos de Copa

O inesperado acontece. Ele, que aos 85 anos jamais ganhou um prêmio sequer, acerta o bolão da Copa. Na turma ninguém acredita no Brasil, só ele. Deus ajuda quem tem fé e ele tem. Tinha virado motivo de chacota: ô véio, cê num vai ganhar.
Neymar já era, time bom é do nosso tempo, Jairzinho, Tostão, Pelé, Garrincha. Essa geração tá carente. Jogador é o CR7. Jogador é o Messi.
Ele insiste. Três a zero pro Brasil, três gols do Neymar. Acerta na mosca. A bolada é gorda.
Baiano, viúvo, saudade da terrinha, não pestaneja. Uma semana num resort em Salvador. Merece este presente. Convida a caçula, sem chance meu pai. Convida o filho, próxima vez eu vou. Então só me resta ir só, fala sob olhares incrédulos e preocupados dos filhos. E vai.
Não acredita em tamanho luxo. No quarto caberia folgadamente sua família. Televisão 40 polegadas. No frigobar a marca preferida de cerveja, champanhe, refrigerantes e petiscos variados. Ponto alto, a vista para o mar e as noites claras de lua cheia.
Fim de tarde. Sentado na praia, pensa nos dias deliciosos que passou na sua Bahia adorada, enquanto se deslumbra com a lua cheia nascendo do mar. De repente sente sua presença. Muito chique, cabelos grisalhos bem cuidados, veste calça e camisa branca, no pescoço um xale de tricô azul, verde e amarelo, em homenagem à Copa, diz ela. Foi a conta. Um inevitável “que lua maravilhosa”. Mineira, 81 anos, viúva faz seis meses, veio a Salvador para uma série de concertos na Igreja do Bonfim. Ama música clássica. Ele conta o porquê de estar ali e declara: gosto mesmo de uma roda de samba. Ambos riem e a conversa rola junto com duas garrafas de prosecco, até a lua se por, dando lugar ao sol que ameaça aparecer. Um toque de mão, um agrado no rosto, uma troca de olhar. E o inevitável acontece. Atração de um homem de 85 anos por uma mulher de 81. Por que me olha assim? ela pergunta. Estou deslumbrado, responde ele. Como dois jovens, se jogam na cama sem cobranças, sem se importarem com seus corpos, sentindo a pele um do outro. No rádio, Pagodinho canta Ivone de Lara. Ela pergunta sorrindo: você reparou que nos amamos ao som de uma roda de samba? Ele responde com um beijo acalorado. Ficam deitados por algum tempo, em silêncio, aproveitando o aconchego do amor depois dos 80. O sol vai alto quando ela se levanta. Se veste e diz: primeira vez que faço sexo casual. Taí, gostei! Pega seu xale verde e amarelo e sai. Ele fica na cama por mais uns instantes, mal acreditando no que acabou de acontecer. Este sim foi maior gol da Copa!

Compartilhar:

Compartilhar no facebook
Compartilhar no google
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email

Curta nossa página no Facebook e acompanhe as crônicas mais recentes.

Crônicas Recentes.