Essa gente de colete que não gosta de futebol

Todo jogo de Copa do Mundo é assim: tem o campo com sua grama verdinha-nem-sempre e tem aquelas faixas brancas que demarcam o gramado. As mais importantes são as linhas de fundo e as linhas laterais que, olhem só, vejam vocês, elas impõem limites.

Depois desse perímetro, a cinco metros do campo, tem os painéis dos patrocinadores, em LED, uma coisa chique de se ver: a FIFA depois da ADIDAS depois da NIKE depois da FIFA mais uma vez, nos uniformes, nos meiões e nas chuteiras.

Atrás dos LEDs ficam os gandulas, que disputam espaço com a grande imprensa e seus canhões tecnológicos com lentes de alta precisão feitas para filmar arranhão de jogador em zoom de zoom de zoom daquele sangue escorrendo, das gotas de suor, ui, a caca do nariz do técnico alemão, eca, das travas das chuteiras espancando pés e canelas adversárias, da camiseta rasgada customizada no puxão feito para ser faltoso, das cotoveladas e das tatuagens.

Quando dá, servem para gravar os gols e as defesas dos goleiros, aquela bola na trave.

O fato é que há um vão entre o jogo e os torcedores. E nesse espaço, ali depois das placas dos patrocinadores, ali antes da arquibancada, ficam os homens da segurança, algumas mulheres também, com seus coletes, olhando para qualquer um na torcida menos para o jogo, olhando para qualquer um na multidão menos para o jogo, o jogo inteiro, salvo aquelas escapadelas por cima do ombro – tomara que os organizadores não notem –, mas nunca na hora do gol.

Na hora do gol é momento de conter bandos e aglomerações e o pessoal de colete pode ver tudo o que quiser, pode ver homem beijando homem (não na Rússia), mulher beijando mulher (na Rússia, não!), homem beijando mulher e mulher beijando homem, aí sim, ok, aquela passada de mão, os braços erguidos, os pulos, os gritos, as bandeiras e os acenos, mas o que essa gente não quer ver, mesmo, é um soco fora do gramado ou algum maluco arrancando a própria roupa para abraçar seu jogador preferido dentro do gramado. Pancadaria? Jamais.

Penso que essa gente de colete, desde que não role qualquer briga, não está nem aí para o que as pessoas na arquibancada estão fazendo, pensando ou querendo, todas essas pessoas emboladas.

Penso que essa gente de colete está mais preocupada em recriar e remontar e reinventar cada lance do jogo através das reações da torcida, o suspiro, uuhhh, e a mão na testa.

O olé e o trovão;

Os xingamentos e os brados de gol.

Penso que essa gente imagina a chuteira na bola, aquele som ao fundo, o drible, aquele murmurinho, a finta, o jogo de cintura, e penso que elas imaginam o jogador rolando no chão depois do carrinho, @#$%, que elas sabem que foi pênalti mesmo sem olhar pra trás, não precisam de bola, nem de estrelas em campo, é só esse corpo de baile feito de corda e torcida, a euforia e o desespero, o contra e a favor, uivos e aplausos.

Ou essa gente de colete não gosta de futebol.

Ou essa gente de colete sofreu algum tipo de ameaça no maior estilo “ou vai, ou vai”.

Ou vai, ou desce.

Ou vai, ou morre. Vai, porque eu conheço sua família; vai, para não perder o emprego; vai só porque eu sei o que você fez no verão passado.

Ou é ódio.

Porque olhem só, eu duvido desse voluntariado cheio de amor quando se trata de Copa do Mundo. Porque quando se trata de Copa do Mundo e quando você é fã do melhor futebol de todos os futebóis você nunca aceitará, de bom grado, ficar ali à beira do gramado dando as costas para os melhores jogadores do mundo.

Ou é ilusão.

É que não existe paixão que resista àquela olhadinha por cima do ombro, de pescoço inteiro e por muito, muito tempo, vejam vocês, que arquibancada, que nada,

ou bom sujeito não é!

 

[Copa do Mundo da Rússia, 2018 – Staff]

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