Já é Copa?

Nossa, sério que já é Copa? disse há poucos dias a um amigo. Não, eu não estava no clima. Mesmo. De-fi-ni-ti-va-men-te. E aceitando como nunca esse descompasso com o coletivo, que costuma apresentar-se em épocas como o Natal. O que importa é esse friozinho, a lua minguando, a alegria de re-costurar aqueles contextos que apenas a solitude ilumina. Muito embora pudesse ser bom também aproveitar um tempo para observar o cinza e seus tons de garoa tomando um café com leite na padaria. Àquele horário, aquele canto da janela estaria completamente vazio. E eu poderia contemplar e rememorar, sorvendo líquido quente sem pressa, sendo vagueada por uma bonita teia de pensamentos.

Esse era o plano. Mas eu tinha esquecido. Não eu não estava no clima, o que me fizera realmente esquecer. Já é Copa. E àquele horário, bem perto do meu canto para solitárias reverberações poéticas, alguns senhores de cabelos muito brancos se agrupavam em uma pequena torcida.defronte à TV. Eram cinco ou seis. Aproveitavam para se conhecer um pouco melhor ali,  esperando a hora do jogo começar. Debaixo daquelas bandeirinhas. Pois é. Já é Copa. Enternecida segui para a janela sabendo que teria companhia. Mas ainda assim acreditando que poderia, olhando para o lado, simplesmente me deixar absorver pela paisagem.

Mas veja. O jogo era entre Espanha e Portugal. Um clássico ibérico de muitas naus. E, ainda que por um tempo eu tenha conseguido me abster o fato é que meu sangue começou a fervilhar. Eu não torcia para nenhum dos lados. Mas poxa, eram duas nações em campo. Essas duas nações. É. Foi nessa hora que eu vi que já era. O café com leite esfriava na xícara enquanto eu tentava decorar os nomes dos jogadores. Outras pessoas foram chegando. Uma moça sentou-se sozinha e pediu uma taça e uma pequena garrafa de vinho. Olha aí a esperteza ibérica, pensei. E eu lá, café com leite.

Mas logo chegou a hora do café expresso. Sim, porque ir embora antes do final transformou-se em uma ilusão longeva. Cristiano Ronaldo, Diego Costa e alguns outros me convenceram de forma testosterônica a ficar. No intervalo, a moça da mesa ao lado já pedia a segunda garrafa e agarrava conversa sorridente com um dos senhores de cabelo branco. Espertinha.Uns turistas com câmeras fotográficas adentraram e se detiveram demoradamente por entre as mesas com olhares confusos. Deviam esperar alguma outra coisa de um dia de Copa no Brasil.

Eu pedia mais um café amargo enquanto concluía que era difícil ver tantas bandeirinhas do Brasil sem sentir um pouco de náusea. Que, ao contrário do diagnóstico do Zuenir Ventura, o ano de 1968 precisou terminar porque não podíamos passar sem a Copa de 70. Embora sentindo que  Zuenir estava certo. Que ano que nunca acaba.

E então tudo volta a trepidar no ar. O que parecia ser uma vitória da Espanha, que abriu dois gols, atingindo um considerável 3 a 1, transforma-se em um empate com gosto de sangue. E graças ao sangue nos olhos do Cristiano Ronaldo. Eu não me lembro a última vez em que senti o espaço congelar e o coração arder vendo um jogador se preparar para bater uma falta. E aquela sacudida no corpo quando toda a encenação culmina em gol. É desse futebol entranhado no corpo que o tal espírito da Copa se utiliza, mesma dimensão física utilizada pelo espírito do Carnaval, estou bem certa.

Corporificada a Copa, lentamente vou percebendo essa sede celebratória que vai trazendo a moça cada vez mais para perto do homem de cabelo branco e fazendo estranhos trocarem olhares íntimos cheios de interjeições. A mim, uma  inesperada admiração por um jogador de futebol de quem me sinto próxima por carregar o sotaque dos únicos antepassados que eu sei de onde vieram. É. Já é Copa. E  começo a  me sentir como quando não resisto e coloco, em dezembro, a guirlanda com anjinhos dourados na porta.

 

 

 

 

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