Balanço das Copas

Na Copa de 1974 eu tinha oito anos e morava em Porto Alegre. Meu avô materno batia com os punhos na cadeira de balanço enquanto Alemanha e Brasil se enfrentaram. Gol de Rivellino cobrando falta, contando com a agachadinha de Jairzinho na barreira [vídeo – Brasil x Alemanha Oriental]. Um pouco antes quando Alemanha Ocidental e Alemanha Oriental tinham se enfrentado em um embate histórico, com vitória para o lado de lá da cortina de ferro meu e vô baia contra a cadeira a cada lance. O problema com meu avô, imigrante alemão, refugiado da primeira guerra mundial que fora mecânico de automóveis e taxista é que ele acompanhava todos os jogos. Até o fim da vida ia dormir com o radinho de pilha e um daqueles fones de um lado só do ouvido, para no dia seguinte abrir a conversa com um largo: “E o seu Palmeiras ontem ?”

Toda a controvérsia e enigma familiar girava em torno do fato de que ele, como amante e conhecedor do futebol, jamais revelara para que time torcia, seja local ou seleção. Por isso em jogos decisivos, finais ou copa do mundo, as atenções eram duplas, o jogo em si e as reações de meu avô, que afinal poderiam trair, em algum momento, qual era sua preferência decisiva. Lembro que minha brincadeira favorita com ele consistia em abrir a sua mão gigante quando ele fazia o punho fechado. Tendo remado pelo Corinthians Paulista, ainda quando o rio Tietê abrigava regatas, essa era uma tarefa inglória para um menino de oito anos. Fazer ele “abrir o jogo” e revelar sua predileção ou ao menos colher indícios de que se tratava mesmo daquele time da Marginal Sem Número. Atribuía-se seu silêncio ao preconceito que ele e seus dois amigos, Nicola e Issao, haviam passado durante a guerra, em meio a obrigatoriedade de que clubes, escolas e hospitais mudassem de nome. Ele parecia ter interiorizado a suspeita que se voltara contra os alemães e assim decidira que ninguém ia entrar ou saber de suas verdadeiras convicções, o que incluía naturalmente o futebol.

Em 1978 cheguei a pensar que ele era bugrino quando perdemos a final para o Guarani e ele não ficou tão indignado. Ainda assim apoiou Jorge Mendonça na seleção do Claudio Coutinho, o campeão moral diante do “tapetazzo” argentino contra o Peru [vídeo – Argentina 6×0 Peru]. Guerra Fria entre alemanhas, ditaduras quentes entre Brasil e Argentina. As copas que eu não vivi, eu vivi pela lembrança de meu avô.Ao lado do choro do Maracanã em 1950 ele lembrava a quantidade de trabalho braçal necessária para erguer aquela obra de modernidade. Puzcas, tchecos e húngaros corredores da São Silvestre, combinavam-se com a heroica virada alemã na final de 1954 [vídeo – Hungria x Alemanha Final da Copa]. Da copa de 1958 tinha a lembrança narrada dos filmes que chegavam com atraso no cinema do bairro do Ipiranga. A preocupação com a contusão de Pelé em 1962 e a expectativa frustrada em 1966 me faziam quase concluir com “praticamente certeza absoluta” de que meu avô era santista. Ninguém que tivesse visto tudo aquilo podia não ser santista.

A Copa de 1970 sempre foi um caso a parte, um primus inter pares das copas. Dela não me lembro, dela não se fala, dela as memórias vem de fora. Acidentes familiares, e desencontros políticos fazem certas coisas existirem pelas lacunas que elas deixam atrás de si. Sei tudo sobre ela. Os gols revistos pelo Canal 100, as entrevistas, as fotos. Mas não fiz álbum de figurinhas, não lembro onde estava quando Pelé quase fez os maiores gols de todos os tempos, nem sinto na pele Jairzinho e Tostão dançando a vindoura Macarena. Pela voz e pelas histórias de meu avô sinto que vivi mais as Copas anteriores, onde eu não estava, do que esta Copa máxima, da qual sei tudo, mas sinto como se não estivesse estado lá.

Meu equivalente simbólico, em forma de lembrança encobridora, talvez seja a Copa de 1982. Esta eu vivi pintando as ruas de amarelo e verde, escalando cada peça do time de Telê em meio ao impulso de redemocratização do Brasil. Freud descreveu um tipo de personalidade neurótica que ele chamou de os que “fracassam quando triunfam”, ou seja, pessoas que diante de uma grande conquista, há muito almejada, criam-se para si um processo subsequente de autodestruição, depressiva ou maníaca, que anula e parece negar a vitória alcançada. É uma versão disso que Nelson Rodrigues descreveu para nossa impossibilidade de ganhar, nosso complexo de “vira-lata” na copa de 1950. Mas 1982 é o contrário disso [vídeo 4 – a tragédia do Sarriá]. Aquela foi a seleção que “triunfou ao fracassar”, a copa que nos ensinou a perder. Como todo grande romance, que tem que acabar mal, Paolo Rossi nunca se tornou nosso verdadeiro inimigo. Ele está mais para porta voz de nosso destino trágico. Não se compara ao Ghiggia em 1950 [vídeo – Mundial Brasil 1950], porque em 1982 não havia aquela pretensão e empáfia dos que não sabem ganhar. Valdir Perez não foi o Barbosa, porque dele nos orgulhamos até o fim, na derrota mais digna de nossa história [vídeo – Copa del Mundo de Futbol].

Mas em 1986, na copa do México, meu avô não estava mais conosco. Ele e meu pai, outro alemão duro de roer, andaram ás turras até o fim. Levei minha mais nova namorada para assistir a copa em casa, e apresentá-la para minha mãe. Não fosse o escrete nacional a coisa poderia ter demorado mais tempo, mas o pretexto da copa do mundo é imbatível. Dali em diante nossa casa sempre se abriu, para todos que quisessem vir neste momento solene de suspensões morais, ideológicas e partidárias. Vimos juntos Zico e Júlio César perderem os pênaltis, sob as velas acesas e as mandingas de cada qual. Não sei se pela chama da paixão ou se pelo inusitado do momento aquele foi um dos jogos mais incríveis que vi em copas do mundo, com cinco ou seis bolas na trave, gols incríveis feitos e perdidos.

Dali em diante a velha cadeira de balanço veio para minha casa e eu comecei a achar que ela dava algum tipo de azar quando caímos de novo e miseravelmente na Itália em 1990. O praticante da religião chamada futebol é antes de tudo um supersticioso. Quando perde evita a fórmula, quando ganha, cria-se uma nova obrigação ritual. Foi assim que em 1994 fizemos casa cheia para ver o Brasil ser campeão nos Estados Unidos, com os gols improváveis de Romário e Bebeto [vídeo – a dupla Bebeto e Romário]. A fórmula de trazer uma pessoa nova tinha dado certo com a namorada que se tornara minha esposa. Por isso é preciso expandir para “dar mais certo ainda”, trazendo ampliando a turma da faculdade e do consultório, depois meus alunos e orientandos, subsequentemente amigos dos amigos e amigos dos filhos.

Em 1998 eu tinha uma viagem para Inglaterra logo depois da final, logo não pudemos abrir a casa, logo não pude estar em minha cadeira, logo, obviamente … derrota. Só o futebol é capaz de explicar porque o mais alto e elevado acontecimento mundial, como uma pane elétrica inexplicável de Ronaldo Fenômeno [vídeo – Brasil 0 x 3 França], teria alguma ligação com o fato de que você, em sua ínfima e ignóbil insignificância, não estava sentado na tal cadeira de balanço, com seus amigos “naquela” específica posição mental adequada. Você sabe muito bem que não há relação alguma entre os dois acontecimentos. Mas sente mesmo sim.

Em 2002 minha tia comprou um caminhão de badulaques verde amarelos na Rua 25 de Março. Agora tínhamos duas crianças pequenas em casa e junto com elas vinham os amigos dos pais delas. Casa cheia e portas abertas. Vitória mais uma vez [vídeo – Brasil Penta Campeão]. Saímos para comemorar na rua. Mathias tinha agora a idade na qual eu tinha visto, pela primeira vez, meu avô na cadeira de balanço. Nathalia não lembrará desta copa na casa velha.

Em 2006 na Alemanha, caímos de novo diante a França e em 2010 na África do Sul perdemos para a Holanda [vídeo – Holanda 2 x 1 Brasil]. Tivemos que arrumar uma casa maior para caber todo mundo junto. Amigos de todos os cantos chegavam, não sei bem de onde, para buscar acolhida e partilhar o nervosismo de cada partida. Perdíamos mesmo assim. Em 2014, na derrota por 7 a 1 para a Alemanha [vídeo – Brasil 1 x 7 Alemanha], em casa, um ciclo parecia ter se fechado. Teria sido este o desafio final capaz de fazer meu velho impávido colosso germânico abrir o seu coração de pedra? Teria sido esta a hora da verdade, talvez denunciada por uma lágrima de humilhação ou um sorriso discreto?

Quarenta anos e dez copas depois de 1974 uma vida havia se passado. O balanço das copas havia levado e trazido casamentos, filhos, amigos e casas. Meu avô, com seus punhos de ferro, levou o segredo de seu time preferido para o túmulo. Assumi seu lugar naquela canoa, como se ela fosse minha Terceira Margem do Rio, e agora sou eu que brigo com a cadeira de balanço. Tento contar para meu avô a história das copas que ele nunca viveu. Agora são meus filhos que não entendem muito bem porque eu gosto tanto de futebol. É que mesmo sabendo o objeto de minha devoção mais intima, não percebem que o futebol não é só uma questão de vitórias ou derrotas, de nacionalismo e política, de imigrações e famílias, de amigos que vão e que vem. O futebol é o fio vermelho pelo qual muitas histórias podem ser contadas e outras tantas esquecidas. Ele é a matéria prima por meio da qual os punhos fechados de uma geração tornam-se a casa aberta da geração seguinte. É a porta e pretexto pelo qual os refugiados de um tempo tornam-se os hospitaleiros da próxima rodada.

Pela primeira vez vou passar uma copa do mundo fora do Brasil, por isso não vou poder estar com tantos que tanto me acompanharam durante todos esses anos.

Mas vou levar meu avô comigo.

Vai dá certo?

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