A peneira

Anoitecia e ele ainda não havia comido nada desde o frugal café da manhã, pão amanhecido e café preto. Para economizar havia cruzado a imensa cidade a pé, cansando-se bastante, mas não a ponto de desanimá-lo. Sabia que as coisas não lhe seriam oferecidas de bandeja desde que se entendia por gente, desde que seu pai os havia abandonado, sua mãe e seus outros cinco irmãos menores, havia cerca de 4 anos.
Agora não era a hora para reclamações, pois sua chance estava perto, muito próxima, ele podia sentir que o momento pelo qual tanto ansiava estava chegando, finalmente. Sempre batera uma bola com os amigos, os vizinhos da favela onde vivia. Todos o elogiavam pela habilidade, pela destreza com que conduzia a bola, previam um futuro craque. O seu Manolo, espanhol dono da venda do lugar, prometia leva-lo a um clube grande, onde dizia ter contatos, para participar de uma “peneira”, mas isso foi antes da série de assaltos que sofreu, o que finalmente o levou embora do bairro.
Desta vez, sem que ninguém o avisasse, ficou sabendo da seleção que haveria no grande clube para o qual, por coincidência, torcia quando viu uma nota no rodapé da página de um jornal de esportes, quase por acaso. Ligou para o telefone indicado, informou-se da data e dos horários, deixou seu nome por telefone mesmo, e nos últimos 5 ou 6 dias, mal podia dormir, tamanha a sua ansiedade.
Finalmente, após quase quatro horas de caminhada, avistou o enorme estádio de concreto, imponente e cheio de história, onde se daria a escolha dos futuros astros ou apenas frustrados cidadãos do país do futebol. Ele não tinha chuteiras, nunca havia possuído um par, mas esperava que isso não fosse um problema intransponível. Dirigiu-se ao portão sinalizado com uma placa “testes”, com letras vermelhas e pretas e não pode deixar de lembrar-se de seu pai. Este sempre o incentivara a tentar a sorte no futebol, dizia ter sido um promissor centroavante em seus tempos de juventude, quando ainda vivia na Bahia, e que sua carreira gloriosa fora encerrada prematuramente por uma contusão no joelho.
Havia um enorme número de garotos de idade aproximada da sua, conversando, fazendo rodinhas, ansiosos, alguns com ares de imponência, provavelmente aqueles que já tinham experiências em “peneiras” anteriores, outros com ares amedrontados e olhares cabisbaixos, esperando seu momento. Dirigiu-se à pessoa que parecia ser o responsável, identificou-se e recebeu um pedaço de pano, com um número: 1134. Este seria o seu único meio de identificação. Perfilou-se ao lado dos outros e esperou ansioso. Não tinha medo, o pior já passara, apenas sentia certa ansiedade, e fome, da qual já não se lembrava.
O teste foi rápido: os meninos eram estimulados a correrem com uma bola entre cones colocados no chão, conduzindo a de forma a mostrarem controle sobre seu traçado. Ali mesmo, alguns ficaram pelo caminho. Depois um rachão de cerca de dez minutos. Passou pelas duas fases, e foi encontrar-se com a psicóloga do clube, uma senhora elegante e distante. Quando ela lhe perguntou o que mais queria na vida, ele lhe respondeu: comer algo, pois tenho muita fome. Foi reprovado. E continuou com fome.

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