Dostoievskiana

Outro dia ouvi um Ph.D em artes dizer que a literatura brasileira nunca chegaria à densidade da literatura russa. Nunca teria a dramaticidade implícita à língua de Dostoievski, temperada em séculos de catástrofes, guerras, pestes e os Romanov mamando no Estado.

Discordo da teoria. Até porque, tirando os czares e os Romanov, nossa situação não é tão diversa à da Rússia do século 19. Reparando bem, a diferença entre uma literatura e outra reside quase que exclusivamente no nome dos personagens. E olha que, sendo bem honesto, nossos problemas atuais são até mais dramáticos.

Leia o texto abaixo e confira se o Ph.D estava certo ou errado.

“Era domingo, perto da hora do almoço. Alieksiéi Fiódorovitch, Nastássia Prokófievna e os filhos viam tevê no cafofo. Alieksiéi Fiódorovitch estava desempregado há meses. E tomara, na noite anterior, um pifão daqueles. Pra espantar o azar.

Nesse momento, entraram no barraco Elisavieta Filípovna e Nikolai Ivânovna.
Nikolai trazia um cavaquinho nas mãos, Elisavieta um tamborim. Logo atrás deles, surgiu Iegor Tulípanov, chefão do tráfico no pedaço.
Trazia uma peça grande de maminha, duas rabadas cozidas no agrião, farinha de rosca, carvão e cerveja gelada.

Alieksiéi Fiódorovitch, meio aturdido, gritou:

– Que lance é esse aí, ô Tulí?

– Viemos fazê uma churrascada em teu cafofo, mano Fiódo. Pra te ajudá a esquecê a desdita!

– Então vamo se acomodando – disse Fiódorovitch. E berrou para a mulher:

– Nastássia Prokófievna! Bota umas moelas no fogo pro tira-gosto; traz a garrafa da canjibrina pros rapaz.

Começou o pagode. Piotr Stiepânovitch, Klávdia Vassílievna e Varvara Alieksándrovna, que passavam na calçada, não resistiram aos tãs-tãs e skindô-lelês. Subiram ao barraco e fizeram coro, cantando várias do pagodeiro mais famoso do momento: Praskóvia Vsiévolodovitch, o ursinho polar dos teclados.

A carne começava a ficar no ponto, as garrafas de cerveja chegavam trincando ao alpendre e até a velha babuska Vladimirschi caíra no samba, lançando gestos obscenos que faziam todos gargalhar como crianças.

Só quem não gostou da festa foi o vizinho de Alieksiéi Fiódorovitch, o PM aposentado Grigori Stiepântchikov, que começou a achar ruim toda aquela latomia fumacenta. Foi até a porta da casinha de zinco, bateu com força e ameaçou:

– Ô Alieksiéi Fiódorovitch! Que fuzarca é essa! Quero cochilar e não consigo, caralhóvski!

Não obteve resposta. Resolveu arrombar a porta e entrar com tudo no cafofo.
Piotr Stiepânovitch, malaco da gema, puxou da navalha e passou-a pertinho dos “documentos” do PM. O velho tombou de quatro no chão. Klávdia Vassílievna e Varvara Alieksándrovna caíram na gargalhada.

Durou pouco a alegria. Grigori Stiepântchikov, que fazia bico de segurança, pegou seu celular e chamou seis guardas “chegados”. Todos do shopping ao lado da favela.
Os meganhas já entraram atirando. Sobrou bala até para o Condomínio Tolstói, a um quilômetro do local da devassa.

Alieksiéi Fiódorovitch, família e amigos que ofereceram o churrasco foram enterrados como indigentes.

E o czar nem ficou sabendo de nada.

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